Neste domingo, 11 de novembro de 2018 das 14h às 20h, o Coletivo Quadrante Sul apresentou mais uma edição do “Mutação – Quadrinhos, Fanzines e Cultura Pop”, dentro da programação da 64ª Feira do Livro de Porto Alegre.

Denilson Reis, um dos organizadores, em sua fala inicial lembrou do dos objetivos de discutir, debater e dar visibilidade aos diferentes gêneros e autores, vindos do interior do Estado, ou até de outros lugares do País. Como é o caso do convidado especial, o pesquisador e professor da Universidade Federal de Goiânia, Edgar Franco, que veio pela primeira vez a Feira do Livro de Porto Alegre falar sobre a relação entre os quadrinhos e os novos meios digitais, um tema que ele vem acompanhando há mais de vinte anos.  Denilson também lembrou da parceria com o Colégio Marista Champagnat, que estava expondo quadrinhos realizados por alunos da instituição juntamente ao lado do pessoal do Mutação.

Depois da breve abertura, foi exibido dois vídeos de homenagem, o primeiro aos personagens de quadrinhos com aniversários importantes em 2018. E o segundo em memória de profissionais importantes dentro da área dos quadrinhos e também amigos próximos na área do quadrinho e zines independentes. Recebendo os convidados estava o grupo a Liga Heróica, cosplayers de Porto Alegre.

Quem abriu a programação foi o professor e pesquisador Edgar Franco com a palestra “Quadrinhos Expandidos: Das HQtrônicas aos Plugins de Neocortex”. Ele fez um apanhado da sua pesquisa, remontando os primeiros autores que trabalharam com os quadrinhos utilizando computadores e mostrando a evolução desse gênero até o momento. Realizamos uma entrevista com o autor que pode ser lida abaixo em que ele explica mais sobre o conceito.

Ainda rolou a palestra “50 anos de Planeta dos Macacos”, com Gilson Cunha, celebrando a série e recontando historicamente a sua trajetória.

Os quadrinhos digitais em discussão no mercado foi o tema da palestra “HQ Digital, uma solução em meio à crise editorial?”, com Emerson Vasconcelos.

E um debate envolvendo a Liga Comics sobre os dez anos da Marvel Studios. O final contou com a exibição do filme “Fanzine Tchê – 30 anos de Resistência”, seguida de um bate papo com Alex Racor, produtor do filme) e Adão Junior, o produtor do fanzine especial.

Confira a entrevista com Edgar Franco:

O que são as “hqtrônicas” e como você tem trabalhado com isso?

Uma coisa é você escanear quadrinhos e fazer quadrinhos da forma natural, e disponibilizar na internet, outra é você disponibilizar quadrinhos que vão conter elementos de animação, som, que vão incorporar elementos dessa convergência midiática e que vão criando o que eu chamo de uma nova linguagem intermídia, que são essas hqtrônicas, então.Trazem elementos de outras mídias, tendo como base ainda as linguagens do quadrinho, mas criando uma linguagem que ela é diferente. Por exemplo, vamos pensar comigo, uma das características principais das histórias em quadrinho é que elas são uma mídia em que passado, presente e futuro convivem no mesmo espaço. Por quê? Quando estou focando em um quadrinho na narrativa, a minha visão periférica estava varrendo os quadrinhos anteriores e os quadrinhos que vem depois. Isso não acontece em nenhuma outra narrativa. No texto, no livro, você precisa estar lendo, então, é uma decodificação. Como o quadrinho tem o desenho, você já consegue perceber, então. Então, você tem a convivência do passado, do presente e do futuro. Agora você imagina: se você tem na mesma sequência um quadrinho só, que ele tem uma animação, então, você já inclui uma outra coisa diferente. Uma ação no tempo inserida dentro desse contexto. Aí você já tem a hqtrônica, já tem uma linguagem que ela não é a mesma coisa do quadrinho tradicional e tá incorporando essas possibilidades. A Hqtrônica, então, ela passa a existir como fenômeno a partir da metade dos anos noventa, e ela vai chegar em uma segunda fase ali por volta de 2003, com a explosão do software flash, e ela vai entrar em sua maturidade, a partir de 2008, quando teremos uns trabalhos bem mais refinados. Eu já venho estudando isso aí há mais de vinte anos. Eu tenho um livro que foi a minha pesquisa na Unicamp, o Hqtrônicas, que se tornou uma referência de pesquisa para quem vai investigar esse fenômeno. E como autor, desde o princípio também, eu me propus a criar algumas hqs nesse formato. Então, esse livro ele vem com um cd-room com algumas criações minhas nesse sentido.

E na Feira tu estás com quais livros?

Aqui, a minha palestra ela fala sobre hqtrônica, mas ela fala também sobre o que eu chamo de Quadrinho Expandido, que são quadrinhos que são feitos a partir de métodos não tradicionais, principalmente, nesse caso, usos de enteógenos, os softawares livres da natureza, por exemplo, usando a Ayahuasca, do Santo Daime. Usar esses subterfúgios para poder acessar uma ampliação da consciência, outras visões, e criar quadrinhos. Então, tem um trabalho que eu estou lançando aqui, que é o Ecos Humanos, que é uma história em quadrinho muda, feita em parceria com o Éder Santos, e ela foi inspirada em uma experiência minha com o Psilocybe cubensis, que é o cogumelo.  E tem um outro trabalho também que estou lançando que é o Agartha, que fala de um mundo ficcional, que é a nossa percepção do que aconteceria com o ser humano se ele encontrasse o paraíso que ele busca, e os dilemas de se viver no paraíso. Esse é um quadrinho que eu desenhei e que também escrevi o roteiro.

Você leciona na UFG, encontrou resistência na academia para fazer as suas pesquisas?

Leciono na Universidade Federal de Goiás, na Faculdade de Artes Visuais e oriento mestrados e doutorados lá na UFG. Sim, encontrei muita resistência, então tem um álbum que tá aí também que é o resultado do doutorado do Matheus Moura, que é um dos meus alunos, chama-se cartografias do inconsciente. E ele investigou quadrinhos visionários. Só que a tese dele é na minha linha de pesquisa, que é a de Poéticas Visuais e Processos de Criação. Então, ele teria que criar também sobre efeito, não só investigar quem cria, e daí nós ficamos um ano no Comitê de Ética para conseguir passar, e nós conseguimos passar dois métodos que são a Respiração Holotrópica, que hiperoxigenando o cérebro você pode chegar a estados ampliados de consciência e a Ayahuasca, que é uma bebida ritual, em que nós conseguimos que um centro xamã, que trabalha com a Ayahuasca nos ajudasse e assinasse um termo em que eles estariam nos ajudando no processo de pesquisa e conseguimos com muita dificuldade fazer essa pesquisa no contexto acadêmico. E eu como orientador, mais doido ainda, também pirei porque tive que utilizar. Então, eu e ele no Álbum Cartografias do Inconsciente, tem histórias em quadrinhos minha e dele sobre efeito de Ayahuasca e da respiração holotrópica.

E essa história do Ciberpajé, como você se denomina?

O ciberpajé vai acontecer comigo depois de uma experiência com o Psilocybe cubensis em 2011. Eu tive uma crise existencial muito forte em que eu passei a rever todos os meus valores, que tinham importância na minha vida. E isso foi uma coisa muito próxima da depressão. E foi deflagrada devido a essa minha experiência e que foi uma reformatação da minha percepção do mundo e aí no final dessa crise e muito perto do meu aniversário, dez dias antes do meu aniversário, eu criei um ritual artístico e poético de transmutação. Durante os dez dias, a cada dia eu meditava e no final do dia eu fazia um desenho e escrevia um aforismo que representasse para mim os valores que eu queria levar a partir daquele momento. Então foram dez dias, dez aforismos e dez chaves da minha transmutação. E no dia do meu aniversário eu gravei uma música em um take só, chamei de ciberpajé e me renomeei de Ciberpajé. Então, desde lá até aqui, até no meu lattes, você vai ver que está Ciberpajé. Eu assumi e isso é muito comum nas tradições ocultistas essa coisa de tu se renomear. Mas no caso eu criei o ritual para me transformar no Ciberpajé. Ciberpajé não é o guru de ninguém. A ideia é só a minha autotransformação. Não vou criar uma seita, nem nada disso.

Você também se envereda pela música, não?

Sim, comecei em 2004, o nome da banda é Posthuman Tantra no estilo dark ambient e nós fazemos performances. o conjunto também é conectado com o grupo de pesquisa lá da UFG, que é o Criação e Ciberarte e as performances elas levam para o palco a minha percepção transcendente e pós humana daquilo que eu trago nos quadrinhos e nas outras produções. A minha produção artística é um universo transmídia. Na verdade, eu tenho um universo ficcional chamado Aurora Pós Humana, que é um universo mágico também. E as minhas criações todas estão conectadas dentro desse universo ficcional. E o Posthuman é o lado musical, tem cds, e os shows performáticos. Então, é tudo conectado, eu criei esses laços e fui amarrando.

Texto – Rafael Gloria
Fotos – Pedro Heinrich

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