Caio Fernando Abreu nasceu no dia 12 de setembro e completaria 70 anos agora em 2018. Para celebrar a vida e a obra do patrono da Feira do Livro de 1995, vai ocorrer a mesa “70 anos de Caio F.” no dia 16 de novembro às 18h30min no Salão de Bridge, do Clube do Comércio. A proposta é discutir a longa e rica trajetória de Caio que vai da poesia ao teatro – com consagração na prosa e, especificamente, no conto. Em seguida também vai acontecer uma leitura dramática com a atriz Suzana Saldanha. A mesa vai contar com a professora do Instituto de Letras da Ufrgs, Márcia Ivana de Lima e Silva; a astróloga e autora do livro “360 Graus: Inventário astrológico” de Caio Fernando Abreu, Amanda Costa, e o jornalista Israel Augusto Moraes de Castro Fritsch

Caio F. – como costumava assinar suas cartas –, deixou uma relevante contribuição para a literatura brasileira, com livros traduzidos na Europa, além de ser considerado um ícone da contracultura pela geração que viveu os anos de chumbo da ditadura militar no Brasil. Sua morte prematura, em 1996, não significou seu esquecimento para o mundo das letras. Pelo contrário, deu início à redescoberta de sua obra, atraindo novos leitores e instigando pesquisadores a analisar e descobrir a riqueza de sua literatura. Dono de uma obra atemporal, Caio foi agraciado três vezes pelo Prêmio Jabuti de Literatura, o mais importante prêmio literário do Brasil.

Grande parte de sua obra é composta por contos, gênero que cultivou com grande interesse, criando verdadeiras obras-primas. Mas isso não o impediu de caminhar em outras direções, escrevendo romances, peças de teatro, poemas, crônicas e cartas com valor literário inquestionável. Além disso, Caio também se aventurou no campo da tradução, vertendo para o português alguns autores estrangeiros, como Carson McCullers, Susan Sontag e Amós Oz.

Confira um trecho de “Morangos Mofados”:

Chovia, chovia, chovia e eu ia indo por dentro da chuva ao encontro dele, sem guarda-chuva nem nada, eu sempre perdia todos pelos bares, só levava uma garrafa de conhaque barato apertada contra o peito, parece falso dito desse jeito, mas bem assim eu ia pelo meio da chuva, uma garrafa de conhaque na mão e um maço de cigarros molhados no bolso. Teve uma hora que eu podia ter tomado um táxi, mas não era muito longe, e se eu tomasse o táxi não poderia comprar cigarros nem conhaque, e eu pensei com força então que seria melhor chegar molhado da chuva, porque aí beberíamos o conhaque, fazia frio, nem tanto frio, mais umidade entrando pelo pano das roupas, pela sola fina esburacada dos sapatos, e fumaríamos, beberíamos sem medidas, haveria música, sempre aquelas vozes roucas, aquele sax gemido e o olho dele posto em cima de mim, ducha morna distendendo meus músculos.”

 

Foto – Sandra La Porta

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