O ano de 2018 é especial para a República Tcheca e a comunidade tcheca, pois são comemorados o centésimo aniversário do nascimento da Tchecoslováquia independente e os cem anos do reconhecimento diplomático pelo Brasil. E 2018 agora também marca a escolha desta nação como o País Convidado de Honra da Feira do Livro de Porto Alegre. Nesta tarde de sexta-feira, 2 de novembro, no Auditório do Margs, aconteceram quatro mesas sobre história, literatura, filosofia e poesia da República Tcheca.

A solenidade de abertura teve a participação do presidente da Câmara Rio-Grandense do Livro, Isatir Bottin Filho, que agradeceu ao País pela participação na Feira e lembrou o alto índice de leitores da República Tcheca. “Eles leem cerca de 17 livros por ano enquanto a gente tem uma media nacional de 2,6 livros por habitante, isso nos deixa em uma expectativa muito grande, conhecer a sua cultura e os seus valores”, disse. Também estava presente a cônsul-geral da República Tcheca em São Paulo, Pavla Havrlíková. O desejo é de mostrar não apenas a literatura tcheca conhecida no mundo inteiro, como Franz Kafka e Milan Kundera, mas também outros autores. “Não queremos mostrar só a tradução dos livros tchecos para o português, mas também os livros brasileiros sobre a Republica Tcheca”, afirma. Compôs a mesa também Fernando Lorenz de Azevedo, Cônsul Honorário da República Tcheca em Porto Alegre.

Memórias e exílio

A primeira mesa girou sobre o “Cara Liberdade”, livro de memórias escrito por Zdenek Korecek, em que relata a sua história de deslocamento forçado em fuga da II Guerra Mundial até chegar ao Brasil em 1953. Quem apresentou a história do livro e a história do autor foram as suas filhas, Sandra Korecek e Erica Korecek. Elas contam que o livro foi lançado em dezembro de 2015, depois da morte do pai. “É um livro que consideramos herança também e é uma história que se desenrola em uma parte importante do século XX, e que é muito importante sempre relembrar também”, diz Sandra.

A experiência vivida por Zdenek é, também, a de milhões de refugiados que buscam novo lar ao redor do mundo. Ele lutou na Segunda Guerra Mundial contra o nazismo. Erica explica que a aventura do livro realmente começa quando ele completa dezoito anos, foge da ocupação nazista na então Tchecoslováquia e procura se juntar aos aliados na França, porém acaba indo para a África . “Mas a luta dele não se restringiu ao deserto da África, foram seis anos de luta entre África, Palestina, Itália, Alemanha”, diz. Terminada a Segunda guerra Mundial, a Tchecoslováquia acabou dessa vez em território da então União Soviética, e ele decidiu também sair do País. Como ele acabou no Brasil, elas não deixam claro, mas está tudo no livro. “Ele era apátrida, aquele que se encontra sem pátria. E apesar de ter abraçado o Brasil, casado, constituído família, escolheu não se naturalizar brasileiro porque sempre seria tcheco”, conclui Erica

A segunda mesa girou sobre as imigrações, vividas tão intensamente pelo povo tcheco, e como afetam a sua literatura e os intelectuais. A professora e escritora Markéta Pilátóva, formada em línguas romanas e história na Universidade Palacky em Olomuc, trouxe à pauta o tema.

Markéta contextualizou historicamente o País até chegar no impacto que o exílio causou em seus intelectuais, principalmente  no que ela chamou de duas “ondas”, a primeira em 1948, pós Segunda Guerra  Mundial, e a segunda em 1968, pós Primavera de Praga. E então ela focou nas perdas, mas também muito mais nos ganhos dos exilados. Como exemplo, citou um dos principais intelectuais da República Tcheca conhecido mundialmente: o escritor Milan Kundera. Ele chegou na França exilado com 46 anos e teve que aprender francês para escrever. Sofreu muito dos críticos tchecos, porque teve que simplificar sua linguagem para poder escrever no novo idioma. Para ela, a crítica faz sentido, é uma linguagem bem mais simples quando comparada ao tcheco, entretanto isso também o ajudou. “O lado positivo é que como intelectual exilado, ele consegue colocar tudo em um contexto maior. Toda a sua experiência que ele acumulou em outro contexto, com outros olhos. Não é casualidade que suas obras mais importantes foram escritas no exílio”, acredita.

Também aconteceu a mesa República Tcheca e os imigrantes e suas contribuições: o filósofo Vilém Flusser, que explorou a importância que a cultura e pensamento brasileiro tiverem nos imigrantes que fugiam do nazismo oriundos da Tchecoslováquia. Vilém Flusser (Praga, 1920/ Praga, 1991) foi uma dessas figuras. Naturalizado brasileiro, autodidata, mudou-se para o Brasil (São Paulo), onde atuou por cerca de 20 anos como professor de filosofia, jornalista, conferencista e escritor. Sua obra e reflexo foram apresentados por Eva Batlicková. E, para finalizar, a mesa “República Tcheca por seus livros: detendo o vento e a poesia contemporânea”, uma conversa sobre os poemas de Markéta, que resgatam o do seu imaginário tcheco e da memória pessoal uma série de paisagens, personagens e sentimentos, contou com a participação da própria autora e da poeta e doutora em Literatura, Gabriela Silva.

Confira a programação da República Tcheca na Feira do Livro no link a seguir: http://bitly.com/republicatchecanafeira

Confira mais fotos no link a seguir: https://www.flickr.com/photos/feiradolivropoa/albums/72157673012391367

Texto: Rafael Gloria

Fotos: Diego Lopes

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