LV - 2320 webA história do escritor Alcy Cheuiche se confunde com a da Feira do Livro de Porto Alegre. O escritor, que foi patrono da 52ª edição, em 2006, teve um início de carreira marcante sob os jacarandás da praça da Alfândega, há exatos 50 anos. O Brasil vivia os primeiros anos da ditadura militar, em 1967, quando ele lançou “O Gato e a Revolução”, uma sátira ao regime autoritário.

O livro, que foi confiscado na sede da Editora Sulina dois anos depois, após a promulgação do AI-5, será relançado em 3ª edição na próxima terça-feira, 7 de novembro. Às 17h, na Sala Leste do Santander Cultural, está prevista uma roda de conversa em comemoração ao lançamento, com a presença do escritor e de Olívio Dutra, Luís Augusto Fischer e Paulo Flávio Ledur. Às 18h30, Alcy autografa na praça. Nesta segunda-feira, o autor realizou uma oficina sobre o livro “Contos Contemporâneos 2017”.

Conversamos com o escritor, que falou sobre a época do lançamento, a emoção de relançar a obra na Feira do Livro de Porto Alegre e a situação política atual no país. Confira a entrevista na íntegra:

Que lembranças tu tens daquela época, especialmente quando o livro foi proibido pelo AI5? E qual é a tua avaliação sobre os episódios atuais de censura na arte?

Foram dois episódios que se sucederam, um logo após o lançamento do livro, na Feira de 1967, e o outro em maio de 1969, alguns meses depois do Ato Institucional nº5, que fechou o Congresso e voltou a cassar, prender e torturar opositores. Logo após a Feira, a Brigada Militar instaurou um processo contra mim, para estabelecer se houvera difamação, uma vez que o personagem principal da narrativa é um brigadiano, soldado pobre, com dificuldades para viver com seu soldo. Nesse processo fui absolvido, uma vez que o Major Relator reconheceu que os soldados da corporação eram mal pagos e com baixa escolaridade, não sendo raros os Nondinhos [um dos personagens do livro] entre eles.

Já, depois do AI5, não havia necessidade de processo algum. Alguns homens chegaram na Editora Sulina com uma viatura e, sem apresentarem nenhum documento, apenas dizendo que eram da Polícia Federal, requisitaram os cerca de 600 exemplares em estoque e os levaram, decerto para picotá-los ou queimá-los. Quanto a mim, fui obrigado a deixar meu cargo na UFRGS e tive que  procurar distância e emprego em São Paulo, onde vivi nos dez anos seguintes. Diferente dos dias de hoje em um aspecto essencial: não havendo uma ditadura de fato, a censura à arte, mesmo hipócrita e destrutiva, se faz sem queima de quadros ou livros.

Em relação à narrativa, é impressionante como ela reflete na situação política atual do Brasil, exatos 50 anos depois. O que tu destacas destas semelhanças?

Tudo. Os intelectuais e artistas brasileiros continuamos sonhando com um mínimo de justiça social, de igualdade de oportunidade, enquanto os donos do poder obedecem às regras do capitalismo selvagem: lucro a qualquer preço, mesmo à custa da miséria sem assistência (ou não são cidadãos brasileiros os homens e mulheres que vivem debaixo de pontes e viadutos?), da crônica falta de verbas para educação, cultura, saúde, segurança. Isso sem falar no roubo ao dinheiro público que, na ditadura, fabricou lideranças até hoje emblemáticas, como Paulo Maluf.

A sátira, que acabou sendo um dos eixos do livro, continua sendo uma boa estratégia contra o conservadorismo e o autoritarismo?

Sim, ontem, hoje e sempre. Para entender isso basta ler o estudo de Freud, escrito em 1907: O humor é o prazer afirmando-se contra a crueldade das circunstâncias reais. Ou o recurso de Eça de Queiroz, aquele das sete gargalhadas em torno da muralha, até que a muralha caia. Como disse o poeta Moacir Santana, logo após a cassação do livro: Argumentar com a burrice quando ela tem força e poder? Seria outra burrice. Por isso “O Gato e a Revolução” tem o gosto de uma gargalhada.LV - 2332 web
Autor iniciante em 1967, Cheuiche conheceu Erico Verissimo, no auge de sua carreira

O livro foi lançado aqui na Feira do Livro. Como é pra ti trazer novamente a obra aqui para a praça?

O que mais me impressiona é que parece ser o primeiro livro aqui lançado que volta (junto com o autor) meio século depois. Eu o escrevi na Alemanha (embora todos os fatos se passem aqui) com 26 anos e continuo acreditando em tudo que acreditava naquela época. Não renego nada e sinto-me feliz por isso. Imaginem se tivesse sido um livro laudatório à Revolução Redentora de 1964? Houve gente que fez isso, podem ter certeza.

Falando em polarização política entre esquerda e direita, como seria o Nondinho hoje?

Nondinho não era de esquerda nem de direita. Era uma pessoa pobre que só entrou na Brigada para sobreviver. Hoje, por falta de escolaridade, não poderia ser admitido como soldado. Certamente estaria dormindo debaixo do viaduto.

Os personagens que você criou para compor a obra formam uma espécie de mosaico da sociedade porto-alegrense, mas também da brasileira. Como você avalia as representações da diversidade da sociedade hoje em dia e a presença cada vez maior de escritores de variadas etnias, gêneros e origens?

Com todas as barbaridades que estão acontecendo, não podemos negar que, depois da Constituição de 1988,  o índice de escolaridade aumentou, que a mortalidade infantil caiu (principalmente depois que foi incentivada a amamentação com leite materno, em que as mulheres brasileiras são as primeiras do mundo, as vacinações e o soro caseiro), que diminuiu a discriminação de raça (principalmente com as cotas universitárias), que a Lei Maria da Penha é um marco (com todas suas falhas) em defesa da mulher, cada vez mais atuante em todos os segmentos da sociedade brasileira (vide a nossa Feira do Livro, em que, pela primeira vez uma patrona (Cintia) passa a honraria para outra patrona (Valesca), que a consciência ecológica ganhou poder (graças a idealistas como Lutzenberger e Magda Renner); mas que, infelizmente, tudo isso parece muito pouco diante dos abismos, cada vez maiores, que separam ricos e pobres no Brasil. O que não nos impede, aos escritores, de ser patriotas, de acreditar na literatura como arma legítima para a justiça social, e não perder ternura, e também a esperança, jamais.

Entrevista – Thaís Seganfredo

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2 Comentários
  • Nilza Castilho Freitas
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    É muito interessante o comentário do Alcy ele é Alguém que viveu e sentiu o que acontecia naquela época de Ditadura! Temos que fazer tudo o que é possível ppppara essa època Nunca Mais Se Repita!!

  • Tânia Lopes
    Responder

    Grande Cheuiche que além de escritor reparte conosco o que sabe e ensina!
    Mesmo ainda não lendo, certamente vou gostar do “o gato e a revolução”.
    abrs

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