Há algo de sedutor no conflito entre personas muito diferentes que são obrigados a interagir intensamente. Essa é a premissa, por exemplo, de “Anjo Exterminador (1962)”, filme clássico do surrealista Luis Buñuel, no qual as personagens se veem presas em um espaço, carregando o fardo de ter que conviver – e sobreviver. Com o livro“Não se pode morar nos olhos de um gato”, a portuguesa Ana Margarida de Carvalho atualiza a premissa, ainda que seu romance se passe no século XIX. Diferentemente da obra espanhola, no livro de Ana Margarida esses personagens são náufragos de um navio negreiro, e vão parar fatalmente em uma praia brasileira.

Na tarde desse domingo (11), a autora esteve na 64ª Feira do Livro de Porto Alegre, em uma conversa com Gabriela Silva e Reginaldo Pujol Filho, através de uma parceria com o Camões – Instituto da Cooperação e da Língua no Brasil – Embaixada de Portugal em Brasília/DF. O livro, vencedor de diversos prêmios, é inédito no Brasil e foi publicado pela Dublinense.

A trama envolve oito personagens: um capataz, um escravo, um criado, um padre, um estudante, um bebê, uma fidalga e sua filha. Há ainda a santa de madeira, narradora do primeiro capítulo da obra. Como a escritora explicou ao público, ela a escreveu com um português arcaico, a partir da ideia de que, antigamente, os navios portugueses sempre levavam uma dessas imagens para os proteger das tormentas do mar. “Apesar de ser uma santa ancestral, ela está cansada dos horrores que o homem é capaz de fazer e quer que tudo acabe. Além de narradora, ela tem função também de coro grego, como se ela fosse uma polifonia de vozes que comenta o que vai acontecer”, contou.

Além do naufrágio literal, a obra se constrói também dos naufrágios metafóricos de cada personagem. “Eles são todos antagônicos e caem nos seus próprios poços de remorsos e traumas. Assim, a praia deserta vai se enchendo de fantasmas do passado dessas personagens. Uma praia é um conjunto de sedimentos e nós também somos um conjunto de sedimentos que vêm desde a infância”, relatou a escritora, explicando também que mimetizou a lógica do ir e vir das ondas nos comportamentos dos personagens.

Na narrativa, as imagens criadas por Ana Margarida são muito poderosas, ao ponto de chegar à sinestesia, como destacou Gabriela Silva. Ao falar sobre a linguagem do livro, Ana citou o brasileiro João Guimarães Rosa como referência. “‘Grande Sertão: Veredas’ é uma espécie de Bíblia não só para mim, mas para muita gente, pela riqueza enorme das imagens”. A autora também afirmou que as palavras têm 70% do peso de suas obras, sendo o resto pura imaginação. “Gosto de levantar questões e demorar um tempo para respondê-las, o que pode causar desconforto no leitor. Mas, se não formos exigentes com o leitor, é como se fôssemos arrogantes”, disse.

E é sobre o fundamento de suas próprias angústias que os personagens são obrigados a se depararem com a alteridade. “Eles se odeiam, só interagem no âmbito da sobrevivência. Esse confinamento numa situação extrema faz com que eles tenham que se despir literal e metaforicamente, incluindo se despir dos preconceitos sociais, de gênero e raça”, comentou a autora. A proposta, ela contou, era questionar se esses homens e mulheres, que chegam à praia como “animais”, desumanizados, conseguem se tornar um pouco mais humanos e, assim, se colocar na pele do outro. A resposta de Ana não é uma resposta fácil, mas está entre as 384 páginas do livro.

Texto: Thaís Seganfredo
Fotos: Bere Fischer

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