Crédito: Bere Fischer


Conforme a mitologia grega, Atena é filha de Métis, deusa da prudência, com Zeus, o pai dos deuses. Avisado por Gaia, a terra, e Urano, o céu, de que o filho que haveria de nascer de Métis seria mais poderoso que o pai, Zeus corria o risco de ser destronado, assim como ele destronara seu próprio pai Cronos. Zeus desafiou Métis a se tornar uma gota d’água e a engoliu, devido ao receio. Entretanto, Métis gerou Atena no ventre do deus, e a filha veio à luz pela cabeça do pai completamente adulta e armada.

Na tarde deste domingo (18) aconteceu a palestra “O existencialismo francês na literatura de autoria trans brasileira”, com Atena Beauvoir e Phelipe Caetano, na Biblioteca do Clube do Comércio. A filósofa, escritora e educadora – que ressaltou a importância de pessoas trans no evento –  contou a história da Grécia Antiga para explicar a escolha de seu nome. “Atena já nasceu adulta e armada. É a única deusa grega que tem uma finalização diplomática para com as guerras, a única deusa que trabalha com assuntos de política”, disse.

Segundo a filósofa, um assunto que pode parecer simples, como um nome, tem uma profundidade se analisarmos bem o seu significado. Existe uma questão de identidade, uma ideia sobre si. “Qual é o seu nome social? Você escolheu ele ou lhe foi dado? Ele é a sua identidade, você já está vinculado a seu nome social. O seu nome já é uma história que você vai carregar”, questionou.

Em seus estudos, Atena notou a necessidade de retirar o colonialismo na formação da palavra transexualidade. No século XIX, o termo derivou do que era conhecido como homossexualidade, na definição, seria uma atração afetiva-sexual de uma ser por outro de mesmo sexo. “Trans vem do latim: ‘O que está do outro lado’. Assim, cria-se um parâmetro de lado certo e de lado errado. Logo temos um senso comum sobre as pessoas trans, o colonialismo existencial exclui esse ‘outro’”, afirma.

Crédito: Diego Lopes

Transantropologia é o termo que a autora utiliza a fim de defender uma epistemologia, uma produção intelectual de pessoas trans sobre si. Assim, a relação com pensamentos existencialistas de Simone de Beauvoir (1908-1986) e de Jean-Paul Sartre (1905-1980) surgiram ao notar pontos de intersecção com a experiência de uma pessoa trans.

“Sartre e Simone de Beauvoir são os maiores existencialistas da Europa. Em ‘Segundo sexo’, Simone de Beauvoir disse que a experiência do ‘eu’ mulher sempre foi dito por homens. Falei aqui sobre o que é ser trans, estar do outro lado. Enquanto o ‘cis’ está do lado ‘certo’, onde seu corpo e sua ideia sobre si estão confortáveis. Para Sartre, não há modelo humano em que uma pessoa possa estar acima da liberdade. Liberdade é o instrumento que o ser humano menos sabe usar. Em ‘O Ser e o nada”, ele vai discutir a dificuldade do ser humano em ter essa liberdade e gostar de ser limitado, além de reclamar dessa limitação”, relacionou Atena.

Em 2019, a filósofa fará quatro anos de sua transição de gênero. Interagindo com o público, e retomando o debate sobre a vida de uma pessoa trans, ela perguntou: “Quem aqui tem uma tese para defender o seu ser? Quem aqui deu seu próprio nome? Quem aqui escolheu seu corpo? Nomes são histórias materializadas na escrita. A pessoa trans quer tirar esse nome, essa história, essa experiência de existir que é sofrida. A pessoa trans é uma pessoa que não está ajustada a cultura que é imposta nela. Muitos usam a expressão ‘ausente no meu corpo’”, contou.

Porém, mesmo sendo indivíduos expulsos de suas famílias ou com morte social, Atena Beauvoir fez uma colocação sobre uma escolha de recomeçar a vida. “As pessoas trans são as pessoas mais livres que essa sociedade conhece. Elas mudam a latitude e a longitude delas. São 35 anos de pessoas trans produzindo um conhecimento sobre si, mais de 50 títulos. Isso é ter noção de liberdade. As pessoas trans produzem sua própria existência. Você é o que você está construindo de você mesmo” pontuou.

Texto – Airan Albino
Fotos – Diego Lopes e Bere Fischer

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