“Eu costumo pensar que o Caio é uma galáxia e tem muitos meteoros ao redor dele”, diz Israel Fritsch, definindo o fascínio que a academia tem pela obra de Caio Fernando Abreu e, é claro, por sua personalidade. O autor, que faria 70 anos em 2018, foi tema de diversas homenagens nos últimos meses, mas os pesquisadores não se cansam de escrutinar a riqueza de seu universo desde os anos 1990, desde seu lugar na literatura LGBT à influência da astrologia em sua obra.

Israel é um desses pesquisadores, e expôs o tema de seu mestrado em uma mesa na 64ª Feira do Livro de Porto Alegre nessa sexta-feira (16), com a coordenação de Marcia Ivana de Lima e Silva, da UFRGS. “Quando um leitor se envolve com os textos de Caio, se torna fã na concepção mais pop do termo”, diz, classificando Caio como um “autor performático” que trouxe muito de suas vivências para suas obras. Pode-se dizer que é consenso que os textos de Caio são repletos de camadas, e Israel cita, por exemplo, o conto “Aqueles dois”, no qual o tema mais óbvio é o homoerotismo, mas que também traz assuntos como a burocracia, “à qual Caio tinha ojeriza”, opina Israel. O trabalho de Caio como jornalista o frustrava, bater ponto era algo chato, acredita Israel.

As cartas escritas pelo autor ao longo de sua vida são o objeto de estudo de Israel. É através delas que vemos outra dimensão de Caio, como fãs que conhecem a intimidade de um astro. O pesquisador conta que Caio escreveu várias delas, desde que era era adolescente, nos anos 1960, até o fim de sua vida, na década de 1990. “As cartas são a melhor biografia que o Caio nunca escreveu”, defende o mestrando. Ou melhor, formam a obra de autoficção de Caio, conceito no qual o autor se permite criar elementos para falar de si mesmo. “Elas nos permitem ser um pouco voyers”, diz.

E se a intimidade das correspondências de um artista já é um tanto quanto clichê na academia, há espaço para ousadias, como a de Amanda Costa. Sua história com Caio começou quando ela o via caminhar pelas ruas da Cidade Baixa e do Menino deus. Antes mesmo de começar a ler suas textos, já era “fissurada” pela figura do homem, como lhe disse um amigo. Foi num evento literário nos anos 1980 que uma conversa hoje tão comum (e um tema tão amado quanto odiado os uniu): a astrologia.

Esse é justamente o tema de sua dissertação de mestrado deu origem à obra “360 Graus: Inventário Astrológico de Caio Fernando Abreu”, na qual ela estuda as relações da astrologia com a obra de Caio. Segundo Amanda, o tema está, por exemplo, nos contos “Marinheiro” e “Pela noite”, nos quais ele aborda os signos de escorpião e câncer, respectivamente.

Mas a jornada da pesquisadora (agora doutora em Estudos de Literatura), até o resultado foi longa, já que sua primeira tentativa de realizar a pesquisa foi ainda no final dos anos 1980. Na época, o projeto não foi aceito. Duas décadas foram necessárias para o universo abraçar a ideia, pelas mãos do professor Luís Augusto Fischer que, como Caio, foi patrono desta Feira. Foi Fischer (“aquariano, cabeça aberta”, diz Amanda) que abraçou a ousadia da pesquisadora, que acabou lançando a obra em 2011. 

Texto: Thaís Seganfredo
Fotos: Pedro Heinrich

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