Entrevista: Rafael Gloria e Thaís Seganfredo
Foto: Diego Lopes

Momentos de ruptura são naturais na história da arte. Para o escritor argentino Damián Tabarovsky, no entanto, a literatura precisa sair da inércia que marca sua estética. O autor, que está em Porto Alegre divulgando seu livro “Literatura de Esquerda”, acredita que os escritores, mesmo os de ideias progressistas,  são muitas vezes conservadores na linguagem. Damián participa da 64ª Feira do Livro de Porto Alegre nesta quinta-feira (15), no Auditório Barbosa Lessa no CCCEV, às 18h. No mesmo dia, ele autografa a obra às 19h30min, na Praça dos Autógrafos.

Nesta entrevista, conversamos sobre vanguarda, inclusão das mulheres no mercado literário e ainda sobre o termo “literatura periférica”.

Como você avalia a questão da inovação da linguagem na literatura em relação às outras artes?
A literatura sempre teve um problema em relação às outras artes, no sentido que seus tempos são mais lentos. Por exemplo, em relação à vanguarda, um momento chave, que é a década de 1920, 1930, houve romances, como [os do autor James] Joyce… mas não tanto como no cinema e nas artes plásticas. Sempre há, na literatura, uma dimensão conservadora, incluindo esses autores que são vanguardistas, autores que, como eu, tentam defender a ideia da renovação e questionar certas sintaxes hegemônicas. Mas outras artes tiveram, entre o século XX e o século XXI, um nível de experimentação em relação ao qual a literatura ficou um pouco atrás.

Uma maior representatividade, com a entrada de mais mulheres, de mais negros e indígenas no mercado poderia acarretar em uma subversão na qualidade literária das obras?
Eu sou editor, além de escritor, dirijo uma editora na Argentina que se chama Mardulce, uma pequena editora independente, mas muito prestigiosa, onde uma parte muito importante das escritoras mulheres argentinas publicam. No Brasil, vocês conhecem a Selva Almada, que publicou pela Cosac Naify, é uma autora de Mardulce. Para uma editora contemporânea como a Mardulce, é quase natural publicar tantas mulheres quanto homens. Acho extraordinário essa tendência de as mulheres ocuparem cada vez mais espaço não apenas na literatura, mas no geral. Eu tenho uma filha de 15 anos, muito feminista, obviamente, e eu aprendo com ela

Você lançou o seu livro em 2004, e o momento político era outro. Agora, há uma onda de conservadorismo e neoliberalismo.  Como isso se refletiu no cenário literário?
Na Argentina, o livro gerou muita polêmica e muita discussão. Agora, depois de 15 anos, eu acabei de publicar outro livro, que é como a continuação, “Fantasma de la Vanguardia”, que também está gerando muita polêmica. Naquele momento, a Argentina vinha da grande crise de 2001, que foi o pior momento, tivemos cinco presidentes em uma semana. Depois tivemos o Kirchnerismo e, agora, um governo de direita neoliberal. É certo que o contexto político mudou, mas o mercado editorial não mudou tanto. Então esse livro, na minha opinião, continua sendo bastante atual, refletindo sobre a dimensão conservadora de certos escritores progressistas.

Você acompanha o cenário literário do Brasil? Que escritores e escritoras citaria?
Quando saiu o livro aqui ano passado, o jornal O Estado de São Paulo fez uma enquete sobre qual seria a literatura de esquerda no Brasil. Surgiram opiniões muito interessantes, como a de Joca Reiners Terron, muito bem pensada, dizendo que a literatura de esquerda implica numa tensão entre centro e periferia, que no Brasil só existe a de periferia. Mas acho que aqui os os problemas também aparecem, aqui também existe a figura do escritor de mercado, conservador, mas com ideias políticas progressistas.

Apesar disso, a gente tem, aqui no Brasil, a literatura marginal e periférica, que vem cada vez mais ganhando força. Existe isso na Argentina?
Sim, mas não sei se diria que periférico é marginal. Periférico é Kafka, um escritor tcheco, de língua alemã, que escreve na margem, na lateral, mas não é marginal, é descentralizado. Isso me interessa muito na literatura. Borges dizia que esse é o lugar da Irlanda em relação à Inglaterra.  A Argentina tem um idioma falado por centenas milhões de pessoas, que é o espanhol e onde há um poder, que é a Espanha, a Argentina sendo o último país ao sul, o mais longínquo. Então ela é periférica em relação à Espanha. Esse lugar ocupou Borges na construção da sua obra, eu acho extraordinário.

Aqui no Brasil, esse termo é usado também para se referir à literatura produzida nas favelas…
Na Argentina não há isso. Mas, há dois anos, São Paulo foi a cidade convidada na Feira livre de São Paulo. E todos que foram não eram escritores consagrados, eram das favelas. Achei muito interessante, porque aí se articula a política cultural com a social, a cultura como forma de integração social nas favelas. Acho um projeto muito interessante, que espero que com o novo presidente não se perca.

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