Scholastique Mukasonga sabe o enorme peso de seu papel enquanto escritora e, especificamente, enquanto cidadã ruandesa. Expoente da literatura africana contemporânea, foi criada na França, de onde viu o genocídio dos Tutsis em 1994. O fato a marcou pessoalmente, já que toda a sua família foi assassinada na tragédia. Foi do desejo da memória que surgiu o ímpeto dessa escritora potente, que está em Porto Alegre pela primeira vez para a 64ª Feira do Livro de Porto Alegre. A autora tem três livros publicados no Brasil pela Editora Nós:“A Mulher dos pés Descalços”, “Nossa Senhora do Nilo” e “Baratas”.

Mukasonga fala ao público neste sábado (10) às 15h, no Auditório Barbosa Lessa do Centro Cultural CEEE Erico Verissimo, com mediação da jornalista Claudia Laitano e distribuição de senhas a partir das 13h30 no Balcão de Informações. A atividade acontece com apoio da Aliança Francesa de Porto Alegre. Às 16h30min, a escritora autografa na Praça de Autógrafos.

Nesta entrevista exclusiva, a autora falou sobre a situação de Ruanda e o protagonismo das mulheres e sobre a valorização da cultura africana.

Acredita que há uma responsabilidade, um peso maior, quando se escreve sobre violência, sobre dor? Como é teu processo de criação literária ao escrever sobre o genocídio, sobre a tragédia?

Eu escrevo por um dever de memória. Se eu comecei a escrever sobre esse tema da violência, do ódio, da discriminação, que é muito grande, porque foi um genocídio, é porque eu vivi essa história dolorosa. Eu nasci extremamente vítima, já que toda a minha família foi assassinada. Com a deportação, onde eles nos colocaram em outro lugar, a violência sempre foi o meu lugar cotidiano. Os meus pais tinham medo que nós desaparecêssemos e, por isso, fizeram a escolha de me enviar para o exterior, para a França, o que não foi uma coisa fácil porque tive que passar pela fronteira de um país pequeno, Burundi. Eu tive que me afastar para não estar na Ruanda no dia do genocídio em 1994. Isso que você chama de responsabilidade eu chamo de o dever da memória.

Vozes africanas estão sendo tardiamente valorizadas pelas instituições no mundo. O que é preciso para que isso tenha continuidade, para que não seja um movimento passageiro?

Eu não diria que eu estou 100% satisfeita, ainda tem muito a fazer. Eu acho que a África já conquistou o seu espaço, nós a encontramos pelo mundo inteiro, mas temos que sair dessa visão de que somos incapazes. O motivo é que nós somos vítimas da colonização. Isso foi história, isso é fato, já foi condenado e sair disso é um trabalho que deve ser encorajado. Nós temos como qualquer outra pessoa, como um europeu, um ocidental, a capacidade intelectual de escrever.

Nós ainda não temos muitas mulheres na literatura. Na literatura de testemunho, de vivência própria, essa que fazemos na Ruanda – que são pequenos escritos -, tem poucas mulheres. Da África subsaariana, eu sou a única mulher que conseguiu chegar a esse grande destaque. Mas há um progresso, eu não posso dizer que nós retrocedemos. Nós vamos docemente, lentamente, mas nós progredimos. Hoje, por exemplo, a mulher africana se livrou dos tabus tradicionais que a impediam de se expressar livremente. Hoje, ela fala livremente sobre sexualidade, fala as coisas como elas são, que no nosso país de origem poderiam ser muito mal recebidas. A gente não se vê mais como as mulheres que deveriam ser submissas, nos vemos como as mulheres que têm liberdade de pensamento.

Em “Nossa Senhora do Nilo”, você fala sobre questões de classe e discriminação dentro de um espaço feminino. Enquanto isso, em países como a Europa e os Estados Unidos já se fala em um pós-feminismo, algo que não reflete a realidade do Brasil, por exemplo, que é cheio de desigualdades e privilégios. Qual é a tua avaliação sobre a situação do feminismo no mundo hoje?

Hoje em dia, e eu sou convidada em todos os lugares para falar dessas questões, vejo o que está acontecendo com o regime de Trump. É único, é maravilhoso, mulheres que estavam na sombra, negras, imigrantes e que acabaram de se eleger [para o Legislativo americano]. Elas tiveram meios para isso, não caiu do céu. O que é digno de arrependimento e perigoso é quando nós não falamos sobre isso. É necessário que a mulher seja reconhecida em todos os meios, grandes ou pequenos, em todos os lugares. Não se pode criar o tabu.

Não faz muito tempo, estive em Bruxelas, era um dia de conferência somente sobre a situação da mulher na África. É uma situação que na Ruanda nós superamos. Nós vemos a mulher na Ruanda e isso me fez sorrir, Lá a Assembleia Nacional Constituinte foi feita basicamente de mulheres. Todas as instâncias na Ruanda ou são igualitárias ou são as mulheres que estão à frente e os homens estão começando a perder espaço. O objetivo não é fazer uma competição, mas sim chegar ao equilíbrio. A mulher da Ruanda conseguiu se desvencilhar das agruras da maternidade, consegue gerir sua maternidade, com menos influência da religião, e do poder tradicional. Agora, sua prioridade é completar a sua formação, de ocupar funções importantes, como ministra da educação ou dos assuntos estrangeiros. 

Você tem visitado a Ruanda e acompanhado a situação do país, correto? Como está Ruanda hoje social e artisticamente?

Na Ruanda hoje em dia nenhuma área é negligenciada. É um país que se criou com nada. Depois de 1994 já se passou muito tempo, porque o genocídio destruiu tudo. Nós partimos do nada. Ao mesmo tempo, a Ruanda é um país de poucas riquezas naturais, diferente dos seus vizinhos, como o Congo. A Ruanda é um pequeno país que vive absolutamente do que ele produz com suas mãos. Isso é que é marcante, a cada vez que a visito, mais ou menos uma vez por ano, eu não a reconheço. Eu sou uma admiradora do meu povo. Eles não são super homens ou super mulheres, eles são como todo mundo, com suas fraquezas, mas conseguiram se desvencilhar de sua história de divisão, conseguiram não se preocupar mais com o ódio, com a discriminação. Isso não existe mais na Ruanda, eles querem resgatar a sua dignidade.

Hoje, o que é colocado como prioridade é a criatividade. A riqueza de um país é a sua juventude, temos que procurar entre os jovens as suas ideias e vamos escutar cada jovens que têm ideias, é mágico. Hoje em dia há uma mobilização em redor disso, quando um jovem tem uma ideia que pode desenvolver a Ruanda, no domínio da informática, etc. Não é a próxima geração, é a geração de agora.

Nós fazemos um tour por todo país, a gente vai ao campo, a pequenas cidades, à capital, que é impressionante com seus grandes hotéis, clínicas, hospitais, universidades. Outra coisa que a Ruanda tem que desenvolver é o turismo. É um país que está de braços abertos; a cada cinco quilômetro há um tipo de segurança, uma base militar, um policial. O que é interessante sobre a Ruanda é que eles não falam, eles fazem. Quando eles têm uma ideia, eles colocam em prática, é uma outra coisa que eu constatei.

Eu trabalho com muitos jovens como vocês e quando havia alguma grávida não deixávamos passar sete meses e parávamos de trabalhar para preparar o nascimento em boas condições. Bom, eu te garanto que hoje em dia as mulheres da Ruanda trabalham até o último dia e não sofrem mais. Eu digo “é perigoso, você não pode trabalhar até a véspera do parto”, mas elas me respondem “nós não estamos cansadas, nós vamos trabalhar”. Isso para te mostrar a que ponto chega as prioridades dos ruandeses hoje em dia: trabalhar e se colocar dentre os países dignos de viver. A Ruanda se posiciona como um país de mudança.

Conhece algo da literatura ou da arte brasileira no geral?

Eu conheço Conceição Evaristo, que eu admiro enormemente. Eu tive o prazer de encontrar ela em Paraty. É a segunda vez que eu venho ao Brasil, e é verdade que os brasileiros são generosos, eles têm uma curiosidade intelectual incrível. Eu vi quando eu estava em Paraty, eu fui testemunha de como eles leem. Eles andam com um livro na mão, se estão no trem estão lendo, há uma curiosidade incrível, excepcional. E deve ser por isso que o Brasil me convidou, porque já tenho três livros traduzidos na sua língua, já começo mesmo a me pensar como uma autora daqui.

Entrevista: Thaís Seganfredo
Fotos: Diego Lopes

Augusta da Silveira de Oliveira contribuiu para essa matéria.

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