Andrea Giunta. Foto: Bere Fischer

Texto – Thaís Seganfredo
Fotos – Bere Fischer e Diego Lopes

O universo feminino e a problemática da representatividade na arte e na sociedade é o tema da Bienal 12, que ocorrerá em 2020. Abrindo uma série de atividades relativas à questão, a Fundação Bienal do Mercosul e a 64ª Feira do Livro de Porto Alegre realizaram, nesta terça-feira (6), o seminário Arte, Feminismos e Emancipação, na biblioteca do Clube do Comércio. O evento trouxe diversas perspectivas sobre a mulher contemporânea, englobando identidade de gênero com as mulheres trans e também a invisibilidade histórica de artistas negras.

Pela manhã, na sessão “Políticas do Conhecimento”, os discursos da lei, o ativismo trans e a história da arte em primeira pessoa entraram em pauta com as presenças da jurista Maria Berenice Dias, da artista e ex-secretária-adjunta da Livre Orientação Sexual de Porto Alegre e da artista e pesquisadora Roberta Barros.

Quem abriu a sessão foi a argentina Andrea Giunta, curadora da Bienal 12. “A mulher não tem representação igualitária no mundo da arte e isso está em pesquisas científicas”, ressaltou. Em estudo realizado em museus da América Latina, Andrea descobriu que apenas 16% das obras eram de autoras, enquanto os homens representavam 84%. “A problemática hoje em dia é mais complexa. Não há mais a representação binária de gênero, estamos em um novo momento do feminismo”, disse. Diante desse cenário, é preciso considerar nessa discussão questões como o racismo, a xenofobia, a lgbtfobia e o classismo.

Maria Berenice Dias e Gloria Crystal. Foto: Bere Fischer

Outro ponto fundamental a ser considerado é a invisibilidade histórica dos negros na arte. Segundo Andrea, pesquisando 100 anos de na história da América Latina, ela encontrou muita dificuldade em encontrar artistas negras, fato que também será um dos principais na Bienal 12.

Já a sessão “Poéticas do corpo” propôs reflexões sobre a intersecção entre arte e ativismo. A partir de suas pesquisas, as artistas Alice Porto e Julha Franz abordaram as relações dos movimentos feministas com as políticas do corpo e com a performance. Nesse sentido, a identidade de gênero foi trabalhada a partir das drag queen e drag kings, temáticas que também estão nas obras de Julha. A artista também apresentou a performance “Mulher Espinho” ao fim da tarde, sobre violência de gênero.

Rosana Paulina e Igor Simões. Foto: Diego Lopes

Artista e doutora em Poéticas Visuais pela Escola de Comunicação e Artes da USP, Rosana Paulina foi a convidada da mesa “Reconfigurando o Conceito de Arte”, que contou também com o professor da Uergs Igor Simões. Sua produção como artista teve início há 25 anos, quando ingressou na faculdade e viu crescer diversas inquietações provocadas pela ausência de pluralidade cultural no espaço acadêmico. “O Brasil é muito pródigo em não reconhecer a diversidade dos grupos que aqui habitam”, destacou, contando que se deparou com um achatamento na universidade e uma falta de questionamento dos cânones.

Segundo a artista, elementos como a cultura popular, o simbólico, a manualidade e práticas ligadas ao feminino, como os tecidos, eram vetados na universidade. “Escolher a costura era e ainda é um ato político para mim”, afirma a artista, que passou a questionar também questões de raça dentro do feminismo. “Para que as feministas se encontrassem, minha mãe estava lá limpando a casa de uma delas”, relembra.

Em trabalhos  como “Paraíso Tropical” e “Ama de Leite”, que Rosana exibiu na sala lotada, a artista trabalha o racismo institucional histórico. “A história do racismo não é uma história natural, foi uma justificativa inventada para justificar a dominação de um grupo sobre o outro. “Parece que nos conformamos sem questionarmos quem e o que somos.”

Alice Porto, Carmen Lucía e Julha Franz. Foto: Diego Lopes
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