Qual é o papel do livro na transformação social e como garantir o direito humanizador do acesso à leitura? Esses foram alguns questionamentos debatidos por integrantes de bibliotecas comunitárias do país, em uma aula pública realizada na manhã deste sábado (03) no Teatro Carlos Urbim, dentro do ciclo A Hora do Educador.

O encontro foi promovido pelas Redes de Leitura – Bibliotecas Comunitárias de Porto Alegre e contou com a presença de mulheres protagonistas na luta pela democratização do acesso ao livro: Mara Esteves, da biblioteca Djeanne Firmino (SP), Pri Macedo, mediadora da Girassol, no bairro Sarandi (POA), Viviane Peixoto, coordenadora da biblioteca do Arvoredo (POA) e também Maria Chocolate (Duque de Caxias-RJ), considerada uma mestra na área.

Professora por formação, Chocolate emocionou a plateia relatando sua história de vida e sua dedicção à educação popular de idosos, mulheres, crianças e adolescentes, que sempre promoveu voluntariamente. “Eu acho que dentro da barriga da minha mãe eu já agitava todo mundo”, diz. Apesar de uma infância sofrida, na qual não teve tempo de brincar e não encontrou nenhum livro aberto a ela, além de ser obrigada a limpar a escola onde estudava, ela viu sua história começar a mudar ainda muito jovem.

Aos 13 anos, conheceu Garrincha e começou a atuar voluntariamente em projetos de conscientização social, trabalhando com autores como Paulo Freire, por exemplo. “Me formei professora, que era o sonho da minha mãe”, relembra, citando diversos trabalhos que realizou na área da educação. Em 2006, teve depressão. Sem conseguir sair de casa, ela começou a receber visitas das crianças do bairro, e sua varanda foi se enchendo de cor e de livros, que ela lia para os pequenos visitantes e se transformando espontaneamente em uma biblioteca comunitária.

A fala seguinte foi de Mara Esteves, que atua como mediadora de leitura em São Paulo. Ela integra um grupo de mulheres que se conheceram no tradicional sarau do Binho, se reuniram e formaram uma “coletiva” de mulheres, que criou a biblioteca Djeanne Firmino. “Quando você usa muito o gênero masculino, isso caracteriza muito como se homens estivessem fazendo determinada ação. Então nós precisávamos mexer nessas palavras, porque isso é muito simbólico sobre o que você faz”, disse, destacando também o protagonismo das mulheres enquanto lideranças comunitárias. A mediadora de leitura comentou também a importância de um acervo que tenha narrativas femininas e recorte de classe e raça. “Não é uma questão de desprezo pelos clássicos, que nós também cultuamos, mas é uma reparação histórica”, completou.

Viviane Peixoto, da Biblioteca comunitária do Arvoredo, começou sua fala citando um dado: segundo o Instituto Nacional de Analfabetismo Funcional, apenas 12% da população brasileira é composta por leitores plenos. “Isso explica o contexto atual e o que se fala sobre manipulação das massas”, opinou, afirmando que o direito humanizador à leitura não existe plenamente no Brasil. Ela ressaltou a importância de priorizar o tema no âmbito das políticas públicas, como a Política Nacional de Leitura e Escrita, instituída este ano após muita luta e concessões à bancada evangélica. “Nenhum país se tornou desenvolvido sem um plano de educação e cultura. O direito humano à leitura é a chave para a busca de todos os outros direitos”, destacou.

Por fim, Pri Macedo, que atua na biblioteca do coletivo Conceito Arte, na zona norte de porto Alegre, contou sobre os saraus promovidos no espaço, que trazem destaque a autores da literatura periférica, como Sergio Vaz e Jeferson Tenório. “As bibliotecas comunitárias já são resistência por si só, já estão às margens do poder público e estão ali reforçando as identidades das pessoas que vivem na periferia”,  completou.

Texto – Thaís Seganfredo
Fotos – Diego Lopes

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1 Comentário
  • maria Betânia andrade
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    Como e importante o depoimento dessas protagonistas em favor da Leitura e da Escrita em todas as comunidades fazendo o diferencial acontecer nas bibliotecas, Ruas , praças e becos, acreditamos na transformação de vida de cada sujeito que participa das rodas de leitura, mediação de leituras e Rodas de conversas que diariamente acontece em 119 bibliotecas espalhadas por todo o Brasil, levando o livro e a leitura como Direito Humano, parabéns a todos

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