A poesia e filosofia se entrelaçam nas tessituras criadas pela patrona da 64ª Feira do Livro de Porto Alegre. Como uma maestra, Maria Carpi, que em breve completa 30 anos de carreira, rege os temas que lhe comovem – a natureza, o efêmero, a fome, só para citar alguns – a partir de profundas reflexões que levam à composição de suas obras.

Nascida em Guaporé, Rio Grande do Sul, em 1939, Maria Carpi estreou na literatura em 1990, aos 51 anos. Uma das escritoras mais respeitadas da poesia contemporânea brasileira, recebeu o reconhecimento da crítica através de diversos prêmios e distinções. Entre eles, figuram a Menção Honrosa no Casa de las Américas em 1999, em Cuba; o Revelação da Associação Paulista dos Críticos de Arte em 1990, o Erico Veríssimo em 1991, por “Desiderium Desideravi”; vencedora quatro vezes do Prêmio Açorianos de Literatura, categoria Poesia. Publicou obras como “Os cantares da semente” (1996), “A migalha e a fome” (2000) e “O cego e a natureza morta” (2016).

Nesta entrevista, a escritora comenta sobre sua relação sobre a natureza e seu processo de criação e também reflete sobre o conceito de liberdade. Confira:

Este ano, o nosso slogan é “Livro Livre – Um Mundo na Praça”. O que é liberdade para você? Como democratizar a liberdade de acesso ao conhecimento e à arte?
Muito bom o slogan. A liberdade ganha seu maior significado quando o ato de escrever tem a cidadania do mundo. E caminha através de gerações, vencendo os espaços geográficos. E, como disse muito bem Castro Aves, a praça e do povo como o céu é do condor. Entendo liberdade não como vênia de fazer e agir a seu bel prazer, mas agir com responsabilidade, consigo mesmo e com os demais, organizando uma sociedade justa e fraterna. E o acesso à arte é um direito como o acesso à justiça, necessário ao engrandecimento do humano, fazendo com que cada pessoa também participe da criatividade dos artistas. Isso será possível se a organização de cada país se comprometer com programas políticos construtores de cultura. E incentivar a participação da comunidade.

Qual é a lembrança de maior afeto que você tem da Feira do Livro de Porto Alegre?

A lembrança de maior afeto foi quando autografamos juntos, mãe e filho, na Feira da Praça, Maria Carpi com “A Migalha e a Fome” e Carpinejar, com “Um Terno de Pássaros ao Sul”.

Considerando sua própria vivência enquanto escritora e sua visão sobre o cenário literário, acha que é possível ensinar poesia?
Como poesia é essencialmente, além da escrita, cordialidade com a vida, é possível ensinar dando o exemplo. Começamos pelo brinquedo. O Estatuto dos Direitos da Criança e do Adolescente elenca juntos os direitos do ler e do brincar. E escrever poesia lida com a linguagem, mas através do cultivo das emoções.

Você tem uma forte relação com a natureza, inclusive já disse uma vez que uma de suas palavras preferidas é “arvoredo”, o que é interessante, porque me remete também à nossa praça da Alfândega neste momento. Como a natureza aparece na sua obra?
A Árvore é uma metáfora recorrente no que escrevo. Fui criada no interior, Guaporé e a natureza em torno é minha segunda mãe. Sem esquecer o meu amor às ervas que crescem sem que ninguém possa reivindicar o plantio. Temos o sagrado dever de preservar a Terra para os vindouros.

Que outros temas te inspiram a escrever? Há algum sobre o qual você está refletindo mais atualmente?
Pretendo, se tiver paciência, tempo e saúde, deixar uma visão de mundo, através da poesia, concatenando todos os livros. Ligo poesia e filosofia, através da razão poética, como quer Maria Zambrano. Tendo escrito muitos livros ainda inéditos, além dos editados, estou caminhando. Sempre me enamoro de um tema e vou meditando e, depois, escrevo desenvolvendo esse núcleo central como se fora uma partitura musical. Ando pensando na união da Alegria com o efêmero da existência. Seria um paradoxo. Amo os paradoxos. A Poesia esperou por mim. E agora, os Jacarandás esperaram por mim.

Entrevista – Thaís Seganfredo
Foto – Diego Lopes

Posts Relacionados
1 Comentário

Deixe uma resposta