Joanna, Carol, Marta e as alternativas para sair da bolha

Crédito: Diego Lopes

O movimento feminista voltou ao centro dos debates nos últimos anos, entretanto não é a maioria da população que “fala” feminismo. Como é possível levar esse pensamento para fora de uma bolha? No início da noite deste sábado (17) aconteceu a mesa “Feminismo, quadrinhos e representatividade – experiências com artivismo no Brasil e na Noruega”, participaram a jornalista norueguesa Marta Breen e a designer Carol Rossetti, sob mediação da escritora Joanna Burigo.

A última atividade realizada no Auditório Barbosa, do Centro Cultural CEEE Erico Verissimo, pela 64ª Feira do Livro de Porto Alegre, iniciou com o comentário da mediadora sobre a importância de diferentes discursos de mulheres a respeito do tema. “Eu que estudo e trabalho com isso, fico feliz em ver diferentes formas de expressão sobre o feminismo. As tuas ilustrações, Carol, eu conheci por causa da viralização do projeto”, disse Joanna.

O Projeto Mulheres começou em 2014, quando a ilustradora quis transformar a dor de amigas em manifesto. “Eu quis contar histórias reais de mulheres fictícias, porque tinha dificuldade de falar sobre feminismo com pessoas de fora do movimento. Os diálogos eram legais com colegas, mas não com a minha família – principalmente, mulheres. Eu quis confrontar a bolha do ativismo”, explicou.

Crédito: Diego Lopes

A ideia era falar do tema que todas as mulheres sofrem, porém sutilmente. “Eu queria expressar as ideias que eu tinha de feminismo, e percebi que histórias tocam as pessoas. Então fiz de maneira não agressiva, eram histórias curtas sem jargões feministas, para não afastar ninguém”, falou Carol.

“Eu não esperava que isso se tornaria um projeto. Eu fiz um desenho sobre a personagem Marina, que sofreu por ser gorda. Uma amiga minha teve um caso de gordofobia e fiz essa ilustração para falar com ela. As primeiras histórias eram de pessoas que eu conhecia. Depois, mulheres do mundo inteiro me mandaram coisas, foi fantástico sair e ouvir coisas de fora da minha bolha. Lugares de dentro do Brasil, inclusive. Uma arte é a chamada para discussão. Em abril de 2014 o projeto começou, em dezembro foi a primeira vez que usei a palavra ‘feminismo’. Naquele momento, teve gente se perguntando: ‘Isso é ser feminista? Que legal, tô entendendo agora’. Eu fiquei muito feliz com aquilo”, relembrou a ilustradora.

Com influência do movimento de libertação das mulheres na Noruega, por parte de sua mãe, Marta viu igualdade nas histórias que escutou. “Eu era jornalista em um dos principais veículos de Oslo, lá me defrontei com algumas situações. No meu primeiro livro ‘Mulheres, Vinho e Canções’ entrevistei mulheres da música que me contaram histórias muito parecidas sobre se sentirem reduzidas, diminuídas por homens. A indústria fonográfica é dominada por homens, mas vi que isso acontece em todos lugares: política, esporte, etc. Basta ser mulher. Esse momento de clarividência me fez escrever onze livros depois”, contou.

Crédito: Diego Lopes

Marta sempre teve o desejo de fazer quadrinhos para falar sobre o feminismo, mas a falta de aptidão para desenhar lhe fez procurar alternativas. “Nunca desisti do sonho de fazer quadrinho e graphic novels. Em 2015, eu estava fazendo um guia para meninas e fiz um concurso para jovens ilustradoras. Assim conheci a Jenny Jordahl, nós já fizemos cinco livros, como o ‘60 mulheres que você deveria ter conhecido’, sobre mulheres norueguesas, virou um grande sucesso no país”, comentou.

Para o público internacional, a dupla nórdica escreveu e ilustrou o livro “A palavra F. 155 razões para ser feminista”, sobre o movimento de libertação das mulheres. “20 países já traduziram nosso livro. Nós temos ondas de discussões sobre feminismo, acredito que hoje estamos no meio de uma. Nós temos que lutar por tudo, nada nos foi dado. A luta não terminou, porque isso pode ser tirado nós. Semana passada, 10 mil mulheres lutaram na Noruega para manter a lei do aborto”, contextualizou Marta.

Texto – Airan Albino
Fotos – Diego Lopes

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Paula Anacaona, a francesa que encontrou-se com Dandara

Texto: Thaís Seganfredo
Fotos: Pedro Heinrich
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Paula Anacaona encontrou seu lugar nesse mundo. Ou melhor, seus lugares, porque são muitos: São Paulo, Rio de Janeiro, todos os estados do nordeste e – por que não? – Porto Alegre. Escritora e tradutora, ela fundou a Anacaona, editora parisiense especializada em literatura brasileira. “Eu tenho esse sotaque francês que tento apagar”, brincou Paula, fluente em português (que aprendeu sozinha), na sua fala na 64ª Feira do Livro de Porto Alegre. A conversa, mediada por Fernanda Bastos, da editora Figuras de Linguagem, foi nesse sábado (17), em parceria com a Aliança Francesa de Porto Alegre. Na ocasião, ela também lançou seu livro “Tatou”.

Foi aos 24 anos que ela veio para cá conhecer o Brasil. Desde lá, já pegou o avião mais de 20 vezes para essas terras. “Ao lado da minha paixão pelo país, tem a minha paixão pela literatura”, conta. Sua editora, na qual traduz títulos brasileiros para o francês, tem uma atenção especial para a literatura de autoria negra e a literatura marginal. “Eu li Ferréz um dia e me apaixonei, porque apesar de não ter sido criada na periferia, a literatura marginal tem uma revolta que me chamou a atenção”, diz. Filha de uma mãe francesa branca e de um pai negro ausente que veio da Venezuela, ela não se sentia completamente pertencente ao país francês.

Além dos regionalistas como José Lins do Rego, Paula publica muitos autores contemporâneos. Um dos nomes mais recentes é Jarid Arraes, autora de “As lendas de Dandara”.  “Apesar de Dandara não ser uma história francesa, a resistência dela no quilombo foi universal, então os franceses se interessaram bastante”, relata a autora que também conta como os franceses têm uma visão exótica acerca das favelas brasileiras, que Paula tenta, “em um trabalho de formiguinha”, desconstruir. (Na conversa que tivemos no dia anterior à sua fala e que está publicada abaixo, Paula detalhou esse aspecto do mercado).

Recentemente, ela lançou seu primeiro romance, “Tatou”, também publicado no Brasil, que fala sobre “uma mulher negra na França que tem dificuldades em encontrar sua negritude”.  A identidade é um tema que lhe é caro, na medida em que, pelo fato de ser negra, era obrigada a ouvir seguidamente os europeus lhe perguntarem de onde ela vinha. “Essa é uma maneira de dizer ‘eu sou daqui e você é do além’”, conta a escritora, que não entendia a pergunta, porque, afinal, ela era francesa. Era, pois agora já é muito mais brasileira. Aqui, encontrou-se com Dandara, com Maria Firmina dos Reis. Aqui, fez as pazes com o pertencimento.

Sua vivência enquanto mulher negra está na sua obra e em todo o seu trabalho, mas, como fez questão de frisar, essa é uma escolha sua. Como destacou durante a conferência, quando um escritor negro escreve, sempre há a pressão para que ele escreva sobre assuntos negros, sempre há uma caixinha para escanteá-lo. “Temos que prestar atenção para não ficarmos nesse cantinho que os editores e a grande mídia nos dá, senão vamos ficar presos”, defendeu.

***

A escritora conversou com a gente rapidamente na sexta-feira, enquanto passeava pela Feira do Livro. Na entrevista, falamos sobre a inexistência da literatura periférica na França, a visão dos leitores franceses sobre o Brasil e ainda sobre arte engajada. Confira na íntegra:

Aqui no Brasil temos a literatura marginal, que é um dos teus temas de interesse. Mas e na França, existe uma literatura periférica? E se existe, ela é valorizada?
Não, na verdade não tem muita literatura marginal na França. Eu acho que começou um pouco a literatura marginal no final dos anos 1990, mais ou menos ao mesmo tempo em que no Brasil. Mas, depois, eles recusaram esse rótulo de escritores marginais, não quiseram se identificar assim, então o movimento não continuou. Esses escritores continuaram escrevendo, mas cada um em uma editora diferente e sobretudo recusando esse rótulo do marginal. O que eu gosto na literatura do Brasil é esse orgulho pela periferia, que na França não existe muito. Acho também que a população que mora nas periferias da França foi mais para o lado do hip-hop. Tem alguns artistas que escrevem muito bem, são poetas, mas eles fazem hip-hop e não literatura.

O que te levou a descobrir  o Brasil?
Na verdade foi um pouco por acaso. Às vezes, as pessoas dizem que tinha que acontecer e outras pessoas dizem que eu fui brasileira em uma vida passada. Eu acho que eu estava procurando o meu lugar, que na França eu não achava. Viajei de mochilão para a América do Sul toda e eu gostei muito do México, fui para a Venezuela, mas não me identifiquei. Quando eu cheguei ao Brasil, eu me senti em casa. Então eu acredito que fui brasileira em uma vida passada.

Que autores tu destacaria na tua editora e o que está buscando publicar em um futuro próximo?
Eu gostei muito, durante um período, dos escritores regionalistas. Porque apesar de ser uma realidade muito diferente da minha – eu moro em Paris, nunca fui morar no campo –  se tinha uma poesia nos campos de cana-de-açúcar. Publiquei alguns desses autores, como Rachel de Queiroz e José Lins do Rego, mas hoje em dia me interesso mais pela literatura contemporânea, acho muito interessantes os escritores afrobrasileiros. Publiquei a Conceição Evaristo, que pessoal e profissionalmente foi um encontro muito bom, eu aprendi muito com ela e eu acho que sua obra tem um lado poético muito forte e também um engajamento político. Quando um livro pode combinar engajamento político e qualidade literária, é um livro perfeito. Eu publiquei três livros dela e estou à espera do próximo romance. Provavelmente vou lançar uma coleção de ensaios e provavelmente também vou publicar a Djamila Ribeiro. Ela tem um posicionamento, um ativismo que eu acho interessante, sobretudo nessa perspectiva de cada um se conhecer mais.

Estamos vivendo um momento de valorização da autoria negra brasileira, mas com a ressalva de que é preciso dar continuidade, para que não seja passageiro. Como tu avalia esta questão?

Espero que não seja só uma moda. Por exemplo, quando você vê a literatura marginal na França, foi um pouco uma moda, mas no Brasil não, estão escrevendo há 15 anos e acho que não vão parar. Então espero que, para a literatura afrobrasileira, vai ser igual. Aqui também há a “sorte” entre aspas de ser uma maioridade, os negros são 50% da população, sendo que na França, os negros são mais ou menos uns 10% da população, então é claramente uma minoridade. Mas eu acho, hoje em dia, que a geração Y não aguenta mais ficar sem ser ouvida, então tenho certeza que o movimento não vai parar, apesar do Bolsonaro falar que não acredita em minoria. Vamos ver o que vai dar, mas tenho muita fé nesses movimentos.

No teu romance, “Tatou”, tu coloca tua vivência enquanto mulher negra. Tu acredita que todo artista deve ser político?
Acredito que sim. Acho que talvez seja uma questão de gosto, mas eu estava com a Conceição Evaristo na França, a gente fazia uma turnê e foram dez dias muito intensos. Quando a gente foi voltar para Paris, tínhamos quatro horas de trem, e eu fui ler um livro sem o tema da escravidão, da desigualdade. Fui até a estação e comprei o livro da Elena Ferrante, que fez um sucesso extraordinário, eu quis ler o que escreveu uma mulher que vendeu dois milhões de livros. Li e achei sem nenhum interesse. Bem escrito, a história de duas meninas, tudo bem, mas achei que, por exemplo, a autora poderia ter falado do papel da mulher na Itália dos anos 1950, ela não fala.

Acho que “Tatou”, na verdade, fala de uma mulher negra na França, mas com toda a dificuldade que ela tem, sobretudo, de achar a sua negritude. É um livro sobre o caminho até a negritude. Porque essa mulher é miscigenada e criada por uma mãe branca, então a negritude não veio pela família, pelo carinho do pai, foi mais pelo olhar do outro. O outro sempre colocava ela no papel de mulher negra e ela, criada por uma mãe branca, não entendia muito bem o que era isso. Então, no começo do livro, ela tem muita raiva justamente e vai ser seu caminho pessoal e ela vai achar o caminho da negritude indo para o Brasil e descobrindo o movimento do sarau. Tem muita coisa de mim dentro dele, no sentido de que eu também descobri o movimento do sarau, que me comoveu muito. Mas é ficção total, a mulher é riquíssima e eu não sou rica.

Como o mercado editorial vê os autores brasileiros e como os franceses estão recebendo esses autores?
O problema é essa política de exportação que o Brasil fez nos últimos 40 anos, o mito do paraíso racial, da democracia racial, um povo cordial e festivo. O Jorge Amado, que é um escritor que eu gosto, muito fez muito mal para a literatura brasileira. Como ele é quase um dos únicos clássicos que os franceses conhecem,, eles pensam que a literatura brasileira é desse tipo. Então muitas vezes, antes das férias do verão, as pessoas vêm me procurar na feira e elas me pedem um livro para ler na praia. Ou estamos em pleno inverno e elas pedem “me dá um pouco de sol”. Então ainda tem essa impressão da literatura brasileira, que ela vai ser calorosa, exótica, vai ser uma leitura fácil. Se o escritor fosse super intelectual e  falasse de uma família de São Paulo, não é a imagem que o francês tem do Brasil.

Realmente, eu tenho que batalhar muito contra essas imagens, contra esses estereótipos. Os livros que eu vendo muito são os livros sobre favela, porque eu sei, de um ponto-de-vista comercial, que o título é bom, que o francês gosta da favela… assim meio exótico. Eu espero atrair ele com esse título mas eu acredito que, depois, o que tem dentro vai desfazer um pouco esse preconceito e ele vai ter mais a imagem da favela e menos a imagem da Globo. O meu trabalho realmente é um pouco pisar em ovos, no sentido de que os franceses têm uma expectativa, e eu não posso decepcionar. A ideia é equilibrar essa expectativa com uma ética profissional, que é mostrar o Brasil como eu conheço e como eu amo.  

 

Festival do Japão RS participa da Feira do Livro com uma programação voltada a oficinas e palestras

O maior festival de cultura japonesa do estado marca presença na área internacional da Feira do Livro de Porto Alegre no Espaço do Conhecimento Petrobrás. Com atividades que começaram às 10h, com a exibição de vídeos sobre o Japão, a cultura Japonesa e o Festival do Japão no Rio Grande do Sul; seguida de palestras e apresentações sobre como estudar no Japão, por meio de Bolsas de Ensino Superior oferecidas pelo governo japonês; e também a exibição de documentário sobre imigração japonesa no Rio Grande do Sul às 12h30min.

A abertura oficial do evento aconteceu às 14h e contou com o Cônsul do Japão em Porto Alegre Takashi Kondo e a vice presidente do Festival do Japão, Carol Ayako. Além de uma apresentação de taikô. Em sua fala, Kondo agradeceu à Feira do Livro pelo espaço e desejou uma boa Feira a todos os presentes. “A participação não é apenas para preservar a cultura japonesa, mas também o intercâmbio entre os gaúchos e os japoneses e fortalecer os laços. No meu entender somente através do conhecimento podemos entender melhor a cultura de outros outros povos”, acredita. Já a representante da organização do Festival do Japão RS, Carol Ayako, fez um resumo das últimas sete edições e também fez um breve panorama histórico da imigração nipônica no Rio Grande do Sul. “No primeiro festival a gente esperava em torno de três mil pessoas e acabaram indo mais de 14 mil. Cada ano a responsabilidade aumenta mais, assim como cresce muito o público”, diz. Nesses sete edições foram em torno de 300 mil pessoas que passaram pelo evento, sendo 50 toneladas de alimentos arrecadados, se tornando o maior evento de cultura japonesa do estado.


O Festival do Japão tem como objetivo divulgar a cultura japonesa no Rio Grande do Sul e em 2018 foi comemorado os 110 anos da imigração japonesa. É um evento realizado anualmente, sempre no mês de agosto em um final de semana próximo à data de 18/08, considerado o Dia do Imigrante Japonês no Rio Grande do Sul. O evento, então, celebra o dia como uma forma de preservar a cultura e as tradições do país de origem entre os descendentes dos imigrantes japoneses. Ao mesmo tempo, integra os laços culturais entre os povos, mostrando ao público admirador os hábitos, costumes, culinária, expressões artísticas e outras práticas relacionadas ao cotidiano do povo japonês.

Confira a programação:


14:30 – Oficina de Origami (Dobradura)


15:20 – Oficina de Karuta (Jogo com Poesia antiga)


16:10 – Oficina de Soroban e Go (Matemática)


16:50 – Apresentação de Danças Japonesas e de Taikô (tambores)


17:20 – Palestra de introdução à Língua Japonesa


17:50 – Palestra sobre Literatura Japonesa: Haruki Murakami na Literatura Japonesa


18:20 – Palestra sobre Literatura Japonesa: Lightnovel como Gênero Contemporâneo da Literatura Japonesa


18:50 – Oficina de Mangá (quadrinhos japoneses)


19:40 – Oficina de Hai Kai (Poesia)

Mais fotos aqui também: https://www.flickr.com/photos/feiradolivropoa/albums/72157703712559145/with/45875826492/

Texto – Rafael Gloria

Fotos – Bere Fischer

Artistas com deficiência mostram seu talento na feira

No Brasil, mais de 45 milhões de pessoas tem alguma deficiência, segundo o IBGE. os dados, porém não se refletem no direito a muitos serviços, entre eles a cultura. Ainda que a questão da acessibilidade cultural precise avançar em muitos aspectos, o Ciclo Inclusivo, realizado na manhã deste sábado (17) no Teatro Carlos Urbim, contribuiu um pouco para a causa.

O evento foi um momento de mostrar o protagonismo desses artistas, com apresentações de música, dança e contação de histórias com tradução para LIBRAS.

Marcos Davi é artista desde os 14 anos. Em 2006, ele sofreu uma lesão medular e não parou de seguir o seu talento. Atualmente, ele é vocalista da banda Muitos Outros, uma das atrações do Ciclo, que se apresentou com covers de rock da música brasileira. “Faz 5 anos que estamos com esse projeto chamado Show Vencendo Limites, que nós nos apresentamos em peças de teatros, feiras, mostrando como vencer limites através da arte”, diz.

Marcos também é presidente e fundador do Instituto Acessibilizar, que está lançando um novo projeto: uma escola de música para pessoas com e sem deficiência, de modo a promover a inclusão.

A manhã foi recheada de atrações, com meninas cadeirantes flutuando no ballet inspirado em Alice no país das Maravilhas e contação de histórias com o projeto Memória Livre e Angélica Rizzi. O Ciclo Inclusivo foi uma realização do Comitê de Voluntários pela Acessibilidade da Feira do Livro, que conta com serviços como empréstimo de cadeira de rodas na Estação de Acessibilidade, na Praça dos Autógrafos.

Além disso, no Espaço Cultural Paulo Freire (térreo do Memorial do RS) acontece a Exposição de Artes do projeto Conhecer para Empoderar – Associação AFAD Porto Alegre e Desenvolver Inclusão e Diversidade.

Texto: Thaís Seganfredo
Fotos: Diego Lopes

Mina Agossi e o jazz que reconecta

Crédito: Bere Fsicher

No início da noite de sexta-feira (16), a cantora francesa de origem do Benim, Mina Agossi, se apresentou no Auditório Barbosa Lessa, no Centro Cultural CEEE Erico Verissimo. O show “O jazz de Mina Agossi e trio” foi uma parceria entre a Aliança Francesa e a Câmara Rio-Grandense do Livro (CRL). Com sua extensa bagagem cultural, a apresentação uniu o jazz a ritmos africanos, caribenhos e europeus, logo contemporâneo.

Em vez de dizer que a música de Agossi é marcada pela falta de instrumentos, sua harmonia está no ritmo da palma da mão de todos que estão no show, no palco ou não. Até mesmo os silêncios, causados pela imagem divina passada pela cantora, corroboram para o show. Uma conexão entre ela e os músicos se estabeleceu claramente para o público, que respeitou e quis estar presente dessa ligação durante 1h30min.

Crédito: Bere Fsicher


Palmas, percussão, baixo acompanharam a voz de Mina Agossi que iniciou cantando para o Barbosa Lessa lotado “Afro Blue”, música clássica composta pelo cubano Mongo Santamaría (1917-2003) que ganhou letra, anos depois, de Erykah Badu. O jazz tem como grande diferença dos ritmos atuais canções longas, e Agossi explorou essa característica, cantando por mais oito minutos cada música.

As palmas que viraram aplausos pararam mais uma vez para ouvir “Another Life”, música do seu mais recente álbum UrbAfrika. Nesse disco, a cantora buscou se reconectar com o Benim, explorando a tradição musical do país. Mesmo com poucos instrumentos, os solos de cada músico, e a voz de Mina tocaram todos que estavam no auditório. Tanto que até mesmo os que chegaram atrasados ao Centro Erico Verissimo mantiveram uma esperança de conseguir um pequeno lugar para assisti-los.

Fluente em mais de um língua, a cantora cantou “Águas de Março” em inglês, com partes em português, sendo um dos momentos mais marcantes da apresentação. O show de Mina Agossi foi realizado pela Aliança Francesa, após a apresentação única dentro da programação da 64ª Feira do Livro de Porto Alegre, o trio irá para São Paulo, Campinas e Niterói.

Texto – Airan Albino
Fotos – Bere Fischer

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A vida e a obra efervescente de Júpiter Maçã

Júpiter Maçã recebeu justa homenagem pelo conjunto da sua obra nesta sexta-feira, 16 de novembro, no Teatro Carlos Urbim. O jornalista Cristiano Bastos, co-autor da biografia “Júpiter Maçã: A Efervescente Vida & Obra”, falou sobre o processo de escrita do livro, e recebeu o acompanhamento do conjunto musical Império da Lã, formado por Carlinhos Carneiro e Chicão Bretanha.

O evento começou com a apresentação da música “A Marchinha Psicótica de Doutor Soup”, do álbum Sétima Efervescência interpretada pelos dois representantes da Império com Lã. Para Cristiano Bastos, que também é autor dos livros “Gauleses Irredutíveis” e “Julio Remy – história de amor e morte”, Flavio Basso mudou o rock gaúcho e, também, sendo influente a nível nacional. O bate-papo girou principalmente sobre o primeiro álbum solo de Júpiter, intitulado “A Sétima Efervescência”, gravado em 1996 e lançado em 1997, que chegou a ser considerado um dos cem discos brasileiros mais importantes pela Revista Rolling Stone. “Ele fez esse disco em uma época na qual quem dominava a cena musical era o Mamonas Assassinas, o Mangue Beat…ele olhou para trás, para os anos 1960 e transformou aquilo em algo novo, e cantando em português. E hoje, vinte anos depois, todo mundo conhece essas músicas”, afirma.

Para Carlinhos Carneiro, Júpiter se expunha muito nessa época do Sétima Efervescência  e depois, no Tarde da Fruteira. “Neste tem exposição clara da vida dele, alcoolicamente, psicologicamente, meio que antecedendo o que aconteceria depois na vida dele”, relata. Bastos conta uma curiosidade, o codinome Júpiter era uma homenagem ao seu avô que assinava com essa alcunha uma coluna em um jornal de Cruz Alta. Apple era porque a sua avó pelo lado materno se chamava assim. “Era uma pessoa que não olhava para trás, e era difícil convencer ele a tocar antigos repertórios”, explica. Um artista de várias e complexas facetas, sempre em efervescência. 

Texto – Rafael Gloria

Fotos – Diego Lopes

Caio F., os astros e a academia

“Eu costumo pensar que o Caio é uma galáxia e tem muitos meteoros ao redor dele”, diz Israel Fritsch, definindo o fascínio que a academia tem pela obra de Caio Fernando Abreu e, é claro, por sua personalidade. O autor, que faria 70 anos em 2018, foi tema de diversas homenagens nos últimos meses, mas os pesquisadores não se cansam de escrutinar a riqueza de seu universo desde os anos 1990, desde seu lugar na literatura LGBT à influência da astrologia em sua obra.

Israel é um desses pesquisadores, e expôs o tema de seu mestrado em uma mesa na 64ª Feira do Livro de Porto Alegre nessa sexta-feira (16), com a coordenação de Marcia Ivana de Lima e Silva, da UFRGS. “Quando um leitor se envolve com os textos de Caio, se torna fã na concepção mais pop do termo”, diz, classificando Caio como um “autor performático” que trouxe muito de suas vivências para suas obras. Pode-se dizer que é consenso que os textos de Caio são repletos de camadas, e Israel cita, por exemplo, o conto “Aqueles dois”, no qual o tema mais óbvio é o homoerotismo, mas que também traz assuntos como a burocracia, “à qual Caio tinha ojeriza”, opina Israel. O trabalho de Caio como jornalista o frustrava, bater ponto era algo chato, acredita Israel.

As cartas escritas pelo autor ao longo de sua vida são o objeto de estudo de Israel. É através delas que vemos outra dimensão de Caio, como fãs que conhecem a intimidade de um astro. O pesquisador conta que Caio escreveu várias delas, desde que era era adolescente, nos anos 1960, até o fim de sua vida, na década de 1990. “As cartas são a melhor biografia que o Caio nunca escreveu”, defende o mestrando. Ou melhor, formam a obra de autoficção de Caio, conceito no qual o autor se permite criar elementos para falar de si mesmo. “Elas nos permitem ser um pouco voyers”, diz.

E se a intimidade das correspondências de um artista já é um tanto quanto clichê na academia, há espaço para ousadias, como a de Amanda Costa. Sua história com Caio começou quando ela o via caminhar pelas ruas da Cidade Baixa e do Menino deus. Antes mesmo de começar a ler suas textos, já era “fissurada” pela figura do homem, como lhe disse um amigo. Foi num evento literário nos anos 1980 que uma conversa hoje tão comum (e um tema tão amado quanto odiado os uniu): a astrologia.

Esse é justamente o tema de sua dissertação de mestrado deu origem à obra “360 Graus: Inventário Astrológico de Caio Fernando Abreu”, na qual ela estuda as relações da astrologia com a obra de Caio. Segundo Amanda, o tema está, por exemplo, nos contos “Marinheiro” e “Pela noite”, nos quais ele aborda os signos de escorpião e câncer, respectivamente.

Mas a jornada da pesquisadora (agora doutora em Estudos de Literatura), até o resultado foi longa, já que sua primeira tentativa de realizar a pesquisa foi ainda no final dos anos 1980. Na época, o projeto não foi aceito. Duas décadas foram necessárias para o universo abraçar a ideia, pelas mãos do professor Luís Augusto Fischer que, como Caio, foi patrono desta Feira. Foi Fischer (“aquariano, cabeça aberta”, diz Amanda) que abraçou a ousadia da pesquisadora, que acabou lançando a obra em 2011. 

Texto: Thaís Seganfredo
Fotos: Pedro Heinrich

Tecnologia artificial para melhorar visões e vidas

O Espaço do Conhecimento Petrobras recebeu nesta sexta-feira, 16 de novembro, uma apresentação sobre a Orcam, uma tecnologia que promete melhorar a qualidade de vida de pessoas com deficiência visual oferecendo independência ao permitir o acesso a informações visuais, transmitidas por áudio, em uma pequena câmera que pode ser conectada a um par de óculos. A tecnologia foi apresentada pelo representante Nataniel Pádua.

Pádua começou a apresentação, explicando alguns pormenores do sistema e que por ser um equipamento automático, que pode ler textos, reconhecer rostos, identificar produtos, notas bancárias e cores, e informa ao usuário a hora e a data, transmitindo informações visuais de maneira audível. Depois, ainda exibiu depoimentos de pessoas que utilizaram a tecnologia. Finalmente, então, alguns participantes testaram a tecnologia, e fizeram perguntas curiosos sobre o trabalho.

Texto – Rafael Gloria

Fotos – Diego Lopes

Como são governadas as cidades brasileiras?

Em uma nação com mais de 5 mil municípios, como o Brasil, é natural que cada cidade apresente suas próprias formas de implementação de políticas públicas. O que constitui as diferenças entre as prefeituras e o que fez com que algumas tivessem mais eficiência em relação a outras?

Essas são algumas das questões levantadas no livro “A política, as políticas e os controles: como são governadas as cidades brasileiras”, da Tomo Editorial. A obra foi lançada na tarde dessa sexta-feira, com uma conversa na sala O Retrato, do Centro Cultural Erico Verissimo. O livro é uma coletânea de ensaios, fruto de pesquisas acadêmicas pelo país, com organização de André Marenco e Maria Noll.

Marenco explica que a Constituição Federal de 1988 atribuiu aos municípios prerrogativas e autonomia para a governança. nesse sentidos, os pesquisadores têm se perguntado sobre onde está o centro de poder e sobre a relação vertical entre poderes municipais, estaduais e federal. “Embora haja pesquisas suficientes sobre políticas públicas no âmbito federal e estadual, muito pouco se sabe ainda sobre o plano municipal”, diz. “Afinal, no que os municípios se diferem nesse sentido e o que levou a essas diferenças?”, questiona.

Texto: Thaís Seganfredo
Fotos: Pedro Heinrich

 

A agropecuária como vocação rio-grandense

Aconteceu na tarde desta sexta-feira, 16 de novembro, o lançamento do livro “Agropecuária: vocação rio-grandense de todos os tempos”, com o escritor Alcy Cheuiche e o engenheiro agrônomo, Floriano Isolan. A obra foi concebida para valorizar a área, considerada uma atividade basilar da economia gaúcha, mas também científica e cultural, e que está retratada na obra a partir também dos costumes e símbolos gaúchos. A edição foi produzida em comemoração aos 25 anos do Senar-RS. Patrono da Feira do Livro de 2006, Cheuiche vai reverter todo o valor das vendas dos livros que autografar para a Câmara Rio-Grandense do Livro. 

A publicação é simultânea em espanhol e trata-se de uma homenagem aos vizinhos do Prata pela riqueza do intercâmbio rural praticado há mais de dois séculos, num diálogo franco entre os produtores de nossos países. A obra narra fatos, registra depoimentos, mostra em fotos e resgata, nos documentos, ampla visão da história do campo.


Cheuiche começou a mesa declamando um poema sobre o chimarrão, ganhando aplausos da plateia presente. Apresentou o amigo Floriano Isolan e que também foi seu colega de faculdade, Floriano Isolan. Alcy, entretanto, fez veterinária, e Isolan, agronomia. Alcy esclarece que eles trabalharam com o objetivo de explicar por que o Rio Grande do Sul tinha essa vocação. O livro, então, explora muito da história de formação do Estado misturando a poesia das lendas com a pesquisa científica. Isolan afirma que é “um livro muito diferente porque obras desse tipo normalmente são muito técnicas, mas aqui se consegue mesclar a lenda e a história do Rio Grande do Sul também. O agrônomo escreveu sobre soja e a área florestal.

Sobre o processo de pesquisa, Cheuiche coloca que “algumas pessoas podem ficar surpreendidas por eu ter conseguido escrever um livro como este em apenas um ano. Acontece que, de 1981 a 2014, ou seja, durante 33 anos fui diretor da revista de ensino pós-universitário A Hora Veterinária, com ampla penetração em todo o Brasil. Assim, minha maior atuação como médico veterinário foi na área de comunicação científica, o que me facilitou imensamente a pesquisa deste livro”. O escritor é autor do romance histórico Sepé Tiaraju (com muitas edições em português e algumas em espanhol e alemão), o que o levou a conhecer o papel essencial dos 130 anos de existência dos Sete Povos das Missões no pionerismo em solo gaúcho da criação de gado bovino e ovino, do plantio da videira, do primeiro trigo, da domesticação da erva mate, entre outras atividades descritas nesta obra.

Texto – Rafael Gloria

Fotos – Diego Lopes

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