Porque a Primavera também vai e vem todos os anos
E o Sol nasce sempre redondo enquanto o coração pulsa e pulsa.
Já pensou? Quantas vezes pulsa
O coração do seu amigo, da sua Mãe, do seu amor,
    do seu hamster
Enquanto você passa manteiga no pão e sente o calor deles
Sem ter a menor ideia do que é uma extrassístole
   ou um miocárdio.

(trecho de Alegria)

Crédito: Diego Lopes

 

Na tarde de terça-feira (6), o poeta português Gonçalo Ferraz esteve presente na 64ª Feira do Livro de Porto Alegre. O autor que está lançando seu livro “Palavras com som”, pela Libretos, conversou com a reportagem, conversou com público do Salão Bridge do Clube do Comércio e fez uma sessão de autógrafos na Praça da Alfândega.

“A minha formação profissional é biologia, sou pesquisador e acadêmico, eu dou aula. No meu trabalho, é muito importante a gente conseguir manter a criatividade em todas as regras de expressão que a atividade científica impõe. É uma coisa que eu vivo tentando incentivar os alunos: cultivar formas de manter a criatividade e a originalidade dentro das regras. E, de certa forma, a poesia, para mim, é isso, também. É um exercício de expressão sintética de ideias que autor considera importante, dentro de umas regras”, comparou Gonçalo.

O autor diz que tentou explorar diferentes formatos de poesia, desde um soneto clássico a um conjunto de palavras soltas no papel. Porém, o mesmo que cresceu em Lisboa ouvindo seus pais recitando poesias – sua mãe, de 83 anos, lançará um livro de poemas para crianças –, estava sem inspiração.

Crédito: Bere Fischer

“Há poucas coisas que me dão uma satisfação tão grande, como bolar uma ideia de um poema e ver as palavras se encaixando. Normalmente, é uma coisa que acontece quando eu estou correndo, pedalando, caminhando com o cachorro. Mas, há um ano e meio, dois anos, eu pensei que não dava para ficar esperando a inspiração chegar, não iria acontecer. Então, um dia por semana eu me dedico, me permito esquecer todo o resto e ficar em volta de um texto”, contou.

Com essa disciplina, o português sabia que não faria poemas maravilhosos todas as vezes. O que lhe ajudou nesse processo foi conhecer os slams, ocorridos pela Capital. Lu Trentin, amiga poeta, o convidou para uma oficina de Mel Duarte, slammer de São Paulo. “Ir em um slam significou, para mim, um baita desafio. É fenômeno não exclusivamente, mas predominantemente periférico. Pensei: ‘eu gosto, valorizo a coisa real que está acontecendo aqui, de útil, de intenso. Mas o que eu, portugués, branco, pessoa universitária, posso falar nesse ambiente? Sem ficar fazendo pose de coisa que não sou’”, relembrou.

O poema “Alegria” foi composto e inspirado na saída do 6º Slam das Minas, Poesia Contamina, em 8 de julho de 2017, como o próprio Gonçalo abre seu livro. O som que dá nome a sua obra foi influenciado pela sua experiência e contato com novas expressões. Fátima Regina Farias, amiga poeta, também, apresentou ao autor formas inéditas de escrever e de proferir palavras, tanto que ele quis gravar versos com ela. O português conheceu o Sopapo Poético: Sarau de Poesia Negra, outro movimento porto-alegrense de cultura. Depois dessa noite fez “Dois Irmãos”, uma das poesias que compõem seu livro.

Lu, Fátima e Deivith Santos (conhecido como Bart e vencedor do último Slam Conexões) foram convidados por Gonçalo para participarem de sua fala na Feira do Livro, declamando suas poesias. Lu falou sobre empatia, e chorou ao criticar o atual cenário político; Bart falou sobre o genocídio da população negra; e Fátima sobre sua infância. “A gente tem muito que se defender das dicotomias fáceis. A experiência de ir em slam, usar aquele espaço, que me era permitido com poesia, foi e continua sendo um desafio fantástico”, disse o poeta biólogo.

Texto – Airan Albino
Foto – Diego Lopes e Bere Fischer
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