O futuro do movimento LGBT no Brasil pautou a conversa de João Silvério Trevisan na 64ª Feira do Livro de Porto Alegre. O cineasta e escritor participou de uma conferência na tarde desta sexta-feira (9), no auditório Barbosa Lessa, no centro Cultural CEEE Erico Verissimo. O evento foi mediado pelo professor da Puc-RS Ricardo Barberena.

Nas telonas, Trevisan foi, antes de tudo, um subversivo. Expoente do cinema marginal no Brasil nos anos 1960, o cineasta trazia em seus filmes a diversidade, com personagens à margem da sociedade na época: travestis, pessoas com deficiência e até um cangaceiro grávido. Também foi um dos editores-fundadores do jornal alternativo Lampião da Esquina, fundado no final dos anos 1970, primeiro jornal com temática LGBT do país.

Em 2018, Trevisan está lançando uma versão atualizada e ampliada do livro “Devassos no Paraíso”, ensaio de 700 páginas no qual disseca a história da homossexualidade no Brasil. Originalmente escrita em 1986, a obra chegou a ser esgotada nas livrarias e, este ano, foi reeditada pela terceira vez. Apesar da ampla pesquisa realizada, Trevisan disse ao público porto-alegrense que o livro não é um manifesto, não tem a pretensão de dizer o que deve ser feito. “Prefiro achar que é um livro a ser lido para talvez ter elementos a mais para compreender o que estamos vivendo”, disse.

Entre as novidades da versão, há um capítulo nomeado “A volta do deus punitivo” – em referência ao “deus punitivo” da inquisição, outro trecho do livro. Nessa nova parte, o autor trata da “tentativa das bancadas conduzidas por Edir Macedo desde os anos 1990 de criar um Estado teocrático”, segundo Trevisan, o grande sonho neopentecostal. 

Ao ser questionado sobre o momento político conservador, o escritor exemplificou que, no avião que pegou para Porto Alegre, ouviu comentários racistas e classistas. “Vir para cá é muito emblemático, porque essa cidade foi um marco progressista em diversos momentos e de repente está sendo um marco em outro espectro”, lamentou. Ele também afirmou que teme que a parcela progressista da sociedade fique pautada pelo que chamou de “terrorismo bolsonarista”. “Nós sofremos durante todo o percurso de vida com medo da morte. Aí chega um sujeito que tem tido um significado tanático, ou seja, de acabar com coisas, e nós estamos morrendo de medo”, alertou o escritor.

Uma das conquistas da comunidade LGBT ressaltada por Trevisan em sua fala foi a consciência social e política adquirida pela causa. “Ninguém pode nos tirar esse direito ao nosso papel social”, afirmou. Para a atualização da obra, ele contou que pesquisou o movimento LGBT atualmente e viu muitas ações sendo realizadas. Uma dela foi o artivismo, vertente artística que, como definiu, é “uma arte de interferência, de consciência social extrema, sem nunca deixar de ser arte”.

Boa parte desse movimento, opinou, vem dos protestos de 2013, que levaram as pessoas para reivindicar seus direitos nas ruas. Ainda refletindo sobre o cenário político, Trevisan foi aplaudido ao afirmar que a esquerda não soube legitimar esses protestos, que acabaram sendo abraçados pela direita. Como consequência social, o avanço conservador, explica, vem de uma paranoia. “Eles estão na defensiva. Destroem o que nós construímos e nós construímos de novo, porque nosso papel é criar.  Apesar de termos sido tão chutados para as margens, tão oprimidos, aqui estamos nós e não vamos abrir mão”, declarou.

Este é o tema de outro novo capítulo que ele acrescentou à obra chamado “A resistência dos vagalumes”. O trecho inédito traz a metáfora do filósofo francês Georges Didi-Huberman para defender que a luta do movimento LGBT continua. “Quanto mais escuridão, mais brilharão os vagalumes”, disse.

Texto: Thaís Seganfredo
Fotos: Diego Lopes

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