A história de Scholastique Mukasonga é a jornada de uma ruandesa que se descobriu escritora como que predestinadamente, assim como costumam dizer que acontece com os heróis. Scholastique precisava registrar a tragédia vivida por sua família e por toda a etnia tutsi em narrativa literária, se é que é possível dizer que existe uma obrigação no destino de cada um de nós. Há registros na literatura sobre o genocídio que matou 800 mil pessoas na Ruanda em 1994, mas é inédito que uma escritora tutsi o tenha feito. Scholastique vivia na França quando houve o extermínio. Sua família não sobreviveu.

O desejo de se libertar desse devir interno de ser uma guardiã da memória de seus parentes – e de seu país – atormentou a ruandesa por 10 anos. A dor a impedia de falar sobre o fato, e a solução encontrada foi colocar no papel tudo que sabia e sentia, o que deu origem a seu primeiro livro, “Baratas”.  “Eu escrevi sem pensar em publicar, era para salvar a memória, porque eu não tinha nada além disso. A ideia de escrever foi quando tive força de ir para casa, para Ruanda. Dez anos foi o tempo necessário para que eu pudesse ir para lá sem enlouquecer”, a autora contou à plateia lotada do auditório Barbosa Lessa, no Centro Cultural CEEE Erico Verissimo. A conversa, com a mediação de Claudia Laitano, ocorreu na tarde de sábado (10).

Em “Baratas”, Scholastique revive a história da Ruanda desde antes do genocídio, contando como o ódio ganhou força no país décadas antes da tragédia. “O livro traz uma menininha de três anos que olha ao seu redor e vê ruídos por toda parte. Depois, as coisas avançam tão rápido, estou no campo com a minha mãe. Eu acho que ela não sabia que as coisas aconteceriam daquela forma, mas ela buscou os filhos na escola. As mulheres estavam completamente perdidas, os homens não sabiam o que fazer”, relatou, em francês.

Enquanto ela falava ao público, era como se as linhas de sua escrita se encontrassem com as lembranças ainda vivas da autora, e foi com detalhes que ela nos compartilhou oralmente sua memória,  cuja dor e cujo tempo não compreendemos em sua totalidade. “Todo mundo dormia junto, amontoado na sala de aula. Havia o pânico nos olhos da minha mãe, eu tinha arroz, que não costumávamos comer. Fomos empurrados para dentro de um caminhão. Na Ruanda, o sol se levanta muito cedo, às 6 horas da manhã. Numa bela manhã, chegamos um pátio empoeirado e foi como se o caminhão despejasse todo mundo amontoado. Quando somos crianças, somos protegidos pelo fato de desconhecer”.

O trauma que devastou o país é narrado pela autora sem poupar o leitor da crueza dos fatos.  Relembrando os momentos em que era criança, ela conta que haviam campos da juventude, nos quais os jovens eram treinados para matar, sendo os responsáveis pelos assassinatos décadas depois. “Eu diria que sobrevivemos em um contexto em que as pessoas não poderiam sobreviver. Sobrevivemos porque em vez de olhar o presente, pensamos o futuro”, disse.

Outros dois livros da ruandesa já foram publicados no Brasil: “Nossa Senhora do Nilo” e “A Mulher dos Pés Descalços”, no qual homenageia sua mãe. “Eu sou muito apegada a esse livro, com ele ganhei o prêmio que mais me tocou. Minha mãe nos criou com amor para que o filho que sobrevivesse pudesse ficar de pé. Ela era uma contadora de histórias, passava a tradição ruandesa para os filhos através da oralidade. A capacidade de escrever eu devo muito a ela”, contou.

Com “Nossa Senhora do Nilo”, obra na qual a autora escreve um romance além de suas obras de cunho memorialístico, Scholastique fez as pazes com seu devir, pelo menos por enquanto. “Ao escrever esse livro, eu resgatei o prazer de viver”, confessou a escritora, hoje vencedora de diversos prêmios literários. Agora, ela toma distância da História e faz da criação também um meio de libertação. “Quando comecei a escrever, eu nem me perguntava se alguma editora aceitaria meus manuscritos. Quando foi publicado, senti alívio em compartilhar a dor, eu não me sentia mais sozinha, não me sentia mais trancada com a dor”.

Confira neste link nossa entrevista exclusiva com a autora.

Texto: Thaís Seganfredo
Fotos: Bere Fischer

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Foto: Diego Lopes

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