Crédito: Bere Fischer


“Nós somos uma cabeça obesa, carregando um corpo raquítico”. Essa foi e continua sendo uma frase muito usada pela filósofa Viviane Mosé. Na palestra “Conversa com o público: Nietzsche hoje – sobre os desafios da vida contemporânea”, a convidada compartilhou com o Auditório Barbosa Lessa suas teses, pensamentos e reflexões ao longo da vida e da profissão. A frase citada diz que a cultura produzida por nós, não gosta do corpo, ela é apenas intensidade. E nós não sabemos organizar essas intensidades, ordenar nossas pluralidades.

A pergunta “por que eu tenho que atender tantos projetos externos a mim?” norteia uma série de comportamentos comuns hoje em dia, como a formação de bolhas de informação. “As fake news não surgiram na política, elas chegaram na política. Estamos na crise do consumo, uma guerra da informação. São diversos núcleos, dentro de suas bolhas, com muita informação. Não tem nada de errado com a internet, a dúvida é nossa, está em nós com nós mesmos”, teoriza Mosé.

Crédito Pedro Heinrich

Na 64ª Feira do Livro de Porto Alegre, ela autografa e fala sobre seu livro “Nietzsche hoje – Sobre os desafios da vida contemporânea”. Segundo a filósofa, esse é um livro que escreveu durante toda sua vida, pois tem influência dos 23 anos como psicanalista, além dos anos de estudo na academia. Na obra é tratada a exaustão humana, a depressão, a genealogia do sujeito, a discussão da razão, da subjetividade com a realidade, com a linguagem, com a polarização.

“Eu não vejo a sociedade com piramidal, mas, sim, como rede. Sem controle. Hoje os alunos não querem ouvir o professor, eles têm a internet. Hoje eles não querem ser rotulados, a diversidade de gênero está posta, eles não vão ser mais aquele menino e aquela menina de sempre. E quem quer fazer isso voltar são os velhos, não só de idade, mas de pensamento. É uma polaridade velha. O mundo está no domínio do reacionário”, afirma.

A autora recomenda o “Nietzsche hoje” para quem tem interesse no assunto. Ela diz ser o mais fácil das obras presentes na Feira. Já “Nietzsche e a grande política da linguagem” foi a tese de mestrado de Viviane Mosé. Ela lê Nietzsche quando o mesmo afirma a necessidade de uma transvaloração dos valores, à possibilidade de desconstrução desta estrutura. Repensar a linguagem, avaliar a relação que a cultura estabeleceu com os códigos de comunicação. Uma nova grande política.

Para essa edição da Feira, Mosé veio acompanhada de Eduarda La Rocque, sua sócia com quem divide uma publicação: “Política – Nós também sabemos fazer”. Um conjunto de artigos escritos em parceria com outros autores, nele Mosé fala sobre o fazer político, as estratégias das lutas políticas cotidianas, estratégias de ação política. Enquanto La Rocque discute a exaustão do modelo democrático, pautado no mercado de votos, em negociatas e aponta para o uso e a democratização do acesso à informação qualificada como instrumento de resgate da democracia.

Viviane Mosé e Eduarda La Rocque. Crédito: Bere Fischer


As duas escritoras procuram falar em ações propositivas em seus textos, e dão como exemplo, a criação de um Centro de Qualificação da Informação, onde todos, independentemente de posicionamento social, fariam. Assim, as pessoas terão informação com qualidade repassada pelos seus pares, pelos seus semelhantes.

Os mais de duzentos presentes no Centro Cultural Erico Verissimo prestaram atenção a cada teoria, a cada palavra de Viviane Mosé. E nada mais contemporâneo que seguidores indo aonde ela fosse, como na Praça de Autógrafos, para fazer um registro. Entretanto Mosé fala para que seus ouvintes busquem suas pluralidades, entendam suas intensidades, e não criem uma base em uma verdade só, em uma linha reta, em uma narrativa apenas. Nietzsche fala em uma crise da verdade, ele critica a verdade social. Tanto a moralidade quanto a religião e a ciência são iguais, na visão dele. São verdades que querem controlar as pessoas, e quando essas verdades caírem, toda cultura cairá.

Texto – Airan Albino
Foto – Pedro Heinrich e Bere Fischer
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