64ª Feira do Livro de Porto Alegre termina com aumento de 9% em vendas

A Câmara Rio-Grandense do Livro (CRL) divulgou na manhã de segunda-feira, 19 de novembro, o balanço final de público e de vendas da 64ª Feira do Livro de Porto Alegre. Foi registrado aumento nas vendas de 9% em relação a 2017. Em números absolutos, em 2017, foram vendidos 218.643 exemplares. Em 2018, 237.710. Em dezoito dias, 1.260 milhão de pessoas frequentou o evento – 70 mil por dia, número aproximado dos últimos dois anos. A divulgação aconteceu em coletiva de imprensa, apresentada pelo presidente Isatir Bottin Filho e diretoria da CRL, pela coordenadora da Área Infantil e Juvenil e da Área Internacional Sônia Zanchetta e pela coordenadora da programação para público adulto Jussara Rodrigues no primeiro andar do Memorial do Rio Grande do Sul (Rua Sete de Setembro, 1020, Praça da Alfândega – Porto Alegre/RS).

Público adulto
A programação para público adulto promoveu 230 eventos para um público de 14.881, pessoas com 494 participantes (escritores, palestrantes, convidados e mediadores), nos espaços cedidos.

Público infantil e escolar
Foram realizadas 587 atividades para público infantil e juvenil. Participaram dos encontros com autores 363 turmas de escolas de 18 municípios gaúchos e um de Santa Catarina, com um total de 9.667 alunos agendados, sem contar o público espontâneo.

Sessões de autógrafos
Foram realizadas 620 sessões de autógrafos, com destaque para as filas mais extensas: Bel Rodrigues, Monja Coen e Katia Suman.

Atendimento ao público
Foram realizados em torno de 20 mil atendimentos ao público pelo Balcão de Informações da Feira nos 18 dias de evento.

Infraestrutura
A 64ª Feira do Livro de Porto Alegre contou com 85 expositores na Área Geral, 13 na Área Infantil e Juvenil, 7 na Área Internacional, totalizando 105 bancas de livros, de um total de 135 estandes. O evento teve 5.800 m² de área coberta, 9.000 m² de área total. Foram utilizados 5 km de cabos elétricos e 250 lâmpadas. 45 trabalhadores estiveram envolvidos na montagem da infraestrutura (lonas, eletricidade, marcenaria) e aproximadamente 120 na montagem das barracas e estandes. Durante o horário de funcionamento da Feira, foi registrado menos de 40 min de chuva, fazendo desta uma das feiras com menos chuva nos últimos anos

Feira virtual
De 1º a 18 de novembro, o site www.feiradolivro-poa.com.br teve 239.768 visualizações, média de 13.725 por dia. O dia com maior número de acessos ocorreu em 1º de novembro: 24.209. Já no Flickr da Feira, das onze mil fotos tiradas, 4.537 fotos foram publicadas desde a revelação de Maria Carpi como patrona, no dia 18 de outubro. Confira as fotos aqui: http://bit.ly/fotosda64feira.

Acessibilidade
A Estação da Acessibilidade, instalada na Praça da Alfândega, ao lado da Central de Informações, realizou 15 atendimentos para pessoas cegas, 20 atendimentos para surdos com intérpretes de libras e três visitas guiadas pela Feira, empréstimo de duas cadeiras de rodas manuais e duas scooters e venda de 24 audiolivros. O setor também identificou, na Área Geral: seis bancas com títulos sobre libras, três bancas com títulos em braile, quatro bancas com audiolivros, sete bancas com títulos relacionados ao autismo, cinco bancas com títulos relacionados à surdez, sete bancas relacionadas a diferenças em geral; quatro bancas com títulos relacionados às síndromes e sete bancas relacionadas à didática sobre inclusão. Na área infantil, três bancas com títulos sobre libras, três bancas com títulos em braile, quatro bancas com títulos relacionados ao autismo e três bancas com títulos relacionados a diferenças em geral.

Os feminismos na Feira
Um dos principais eixos de programação abordou o protagonismo, a diversidade e a representatividade feminina na literatura, com a participação de autoras de países tão distintos como Ruanda (Scholastique Mukasonga, 10 de novembro), França (Paula Anacaona, 17 de novembro) e Noruega (Marta Breen, 17 de novembro).

Política e História
Outro eixo da programação dedicou-se à política, História, neoliberalismo, cidadania e meio ambiente, reunindo autores como Alcy Cheuíche, Rafael Guimaraens, André Marenco, Juremir Machado da Silva e Dulce Helfer, em torno de temas atuais como os protestos de 2013, o avanço neoliberal dos anos recentes e os 50 anos de Maio de 1968.

Dramaturgia em cena
Neste ano, a dramaturgia foi um dos grandes eixos da programação da 64ª Feira do Livro de Porto Alegre. A homenagem aos 160 anos do Theatro São Pedro, numa parceria entre a Feira do Livro e a EDIPUCRS, foi um dos destaques das atividades com painéis e oficinas. Todavia, a nova geração de dramaturgos que começou um trabalho nesses últimos anos, caso do Coletivo As DramaturgA, também esteve na Feira, com mesas e sessões de autógrafos

Destaques da programação
A carioca Marta Lagarta (4 de novembro), o australiano Stephen Michael King (5 denovembro), o historiador Rodrigo Trespach (6 de novembro), Monja Coen (8 de novembro), a ruandesa Scholastique Mukasonga (10 de novembro), o quadrinista Edgar Franco (11 de novembro), a portuguesa Ana Margarida de Carvalho (11 de novembro), a pernambucana Lenice Gomes (13 de novembro), a editora franco-brasileira Paula Anacaona (17 de novembro) e a norueguesa Marta Breen (17 de novembro). No dia 10 de novembro, a Feira recebeu o 3º Encontro de Influenciadores Literários e Seguidores, com a presença das booktubers e escritoras Bel Rodrigues e Paola Aleksandra.

Horário de funcionamento
Área Infantil
Bancas: 9h30 às 20h30
Programação: 9h às 20h30
Área Geral e Internacional
Dias úteis, domingos e feriados: 12h30 às 20h30
Sábados: 10h às 20h30

Espaços
As atividades aconteceram no Clube do Comércio, Memorial do Rio Grande do Sul, Teatro Carlos Urbim, QG dos Pitocos, Centro Cultural CEEE Erico Verissimo, Auditório da Livraria Paulinas, Auditório da Inspetoria da Receita Federal, Theatro São Pedro, Espaço do Conhecimento Petrobras, Biblioteca Pública do Estado, Auditório do Margs.

A 64ª Feira do Livro de Porto Alegre foi uma realização da Câmara Rio-Grandense do Livro em parceria com Ministério da Cultura e Secretaria de Estado da Cultura, Turismo, Esporte e Lazer. Patrocinadores máster: Braskem, BNDES, Cia. Zaffari. Banco Oficial da Feira: Banrisul Vero. Patrocinador Especial da Praça de Alimentação: Dado Bier. Patrocinador Especial do Teatro Carlos Urbim: Agibank. Patrocinador Especial do Espaço do Conhecimento: Petrobras. Apoio: Prefeitura de Porto Alegre. Financiamento: Pró-cultura RS, Secretaria de Estado da Cultura, Turismo, Esporte e Lazer, Governo do Estado do Rio Grande do Sul.

Sobre a Feira do Livro de Porto Alegre
Criada por iniciativa dos livreiros e editores gaúchos com apoio do jornalista Say Marques, diretor-secretário do Diário de Notícias, a Feira do Livro de Porto Alegre foi inaugurada em 1955. O evento é considerado referência no país por seu caráter democrático e pela consistência do trabalho que desenvolve na área da formação de leitores e de mediadores da leitura, além de programação cultural 100% gratuita. Realizada desde sua primeira edição na Praça da Alfândega, Centro Histórico da capital gaúcha, a Feira é dividida em Área Geral, Área Internacional e Área Infantil e Juvenil. Centenas de escritores, ilustradores, contadores de histórias e outros profissionais participam do evento, que conta com sessões de autógrafos, mesas-redondas, oficinas, palestras e programações artísticas, entre outras atividades. Alguns desses eventos são realizados no Memorial do Rio Grande do Sul, Santander Cultural, Centro Cultural CEEE Erico Verissimo, Auditório da Livraria Paulinas, Auditório do Museu de Artes do Rio Grande do Sul e Auditório da Inspetoria da Receita Federal.

Em 2006, a Feira do Livro de Porto Alegre recebeu a medalha da Ordem do Mérito Cultural, concedida pela Presidência da República, que a reconheceu como um dos mais importantes eventos culturais do Brasil. Um ano antes, havia sido declarada bem do Patrimônio Cultural Imaterial do Estado e, em 2010, foi o primeiro bem registrado, pela Prefeitura de Porto Alegre, como integrante do Patrimônio Histórico e Cultural Imaterial da cidade.

Sobre a Câmara Rio-Grandense do Livro
A Câmara Rio-Grandense do Livro é uma sociedade civil sem fins lucrativos, que tem por objetivo unir entidades e empresas que trabalham pelo livro, promovendo sua defesa e seu fomento, a difusão do gosto pela leitura, a formação de leitores e o fortalecimento do setor livreiro. A entidade conta com mais de 140 de associados, entre editores, livreiros, distribuidores e outras instituições que se dedicam à produção, à comercialização e à difusão do livro, todas com sede ou filial no Rio Grande do Sul.

 

 

Cortejo de encerramento se despede da Feira e agradece aos livreiros

Em clima de saudade, o tradicional cortejo de encerramento da 64ª Feira do Livro de Porto Alegre aqueceu os seguidores no friozinho que fez na noite deste domingo (18), encerrando a Feira. Nos últimos 18 dias, os porto-alegrenses viveram um mundo de conhecimento, imaginação e arte na praça.

O cortejo começou na praça, de frente para a Orla do Guaíba, com a comunidade e os trabalhadores da Feira chegando para a concentração ao som dos versos clássicos “ai ai ai ai, está chegando a hora, o dia já vem raiando, meu bem, e eu tenho que ir embora”. Neste ano, a canção ficou por conta de um grupo de músicos independentes: Vitor Hugo Knobe, no acordeão, Marcos Saraiva, no sax, e Guilherme Linera, no violino.

A patrona, Maria Carpi, sua neta e o presidente da Câmara Rio-Grandense do Livro, Isatir Bottin Filho, puxaram o cortejo, com algumas paradas para a patrona descansar. Enquanto a praça ia sendo melancolicamente desocupada e os livreiros iam desmontando as barracas, eles receberam as tradicionais rosas vermelhas dos seguidores do cortejo. Um ato de gratidão por manter os livros sempre livres de opinião e criatividade para os porto-alegrenses.

Texto: Thaís Seganfredo
Fotos: Diego Lopes e Pedro Heinrich

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Leituras leves no Sarau Elétrico encerram as atividades do Teatro Carlos Urbim

Crédito: Bere Fischer


Sem um tema específico, mas com uma premissa: leitura legais. O Sarau Elétrico com Kátia Suman, Diego Grando e Luís Augusto Fischer finalizou as atividades do Teatro Carlos Urbim neste domingo (18), na 64ª Feira do Livro de Porto Alegre. Kátia relembrou quanto tempo faz o evento: “São 19 anos de parceria com a Feira realizando o sarau, nada mais justo do que manter a tradição”.

Fischer deu início às suas leituras com obras recentemente lançadas. “Palmarinca: livros, sentimentos, capitalismo e resistência”, de Cesar Beras, fala sobre os 45 anos de resistência da livraria porto-alegrense. No texto, é dito que o livreiro é quem faz uma boa livraria, a tornando um ponto de encontro. Fidelidade emocional seria a expressão que demonstra esse “calor” do contato humano no ambiente, assim como um restaurante e diferentemente de um gélido shopping.

“O Centauro e a Pena: Barbosa Lessa e a invenção das tradições gaúchas”, de Jocelito Zalla, foi outra escolha do professor. A passagem falou sobre a invenção das tradições, conceito acadêmico para explicar criações, como as de Barbosa Lessa (1929-2002) e de Paixão Côrtes (1927-2018) na formação dos Centro de Tradições Gaúchas. O texto lido contava sobre a criação do verbo pilchar.

A jornalista, escritora e editora da Figura de Linguagem, Fernanda Bastos, também foi lembrada. Com o livro Dessa Cor, e poema de mesmo nome, ela questiona e reflete sobre as definições, pré-conceitos, estereótipos e significações da palavra cor.

Diego leu “Roland Barthes por Roland Barthes”, com um poema sobre tempo, corpo e lugar de memória do escritor francês. Ele também selecionou a poeta portuguesa Adília Lopes, declamando reflexões sobre o que é escrever uma poesia e uma comparação amorosa entre estrelas e um rapaz.

Katia fez a leitura do poema “Alegria”, do português Gonçalo Ferraz, que participou das atividades desta edição da Feira do Livro. Gonçalo saiu inspirado do Slam das Minas e escreveu sobre essa experiência de trocar e ouvir poesias de diferentes vozes, com diferentes perspectivas, reaprendendo a fazer poesia e retomando a sua alegria em criar.

Alegria também esteve presente em outra leitura da comunicadora e escritora, uma crônica de Antonio Prata, “Carta pro Daniel”. “Hoje você me fez aproveitar a vida, Daniel, por isso vim te agradecer” leu Kátia sobre a comoção de um pai que esqueceu os problemas da vida por uma tarde, pois resolveu brincar com seu filho na praça perto de casa.

Texto – Airan Albino
Fotos – Bere Fischer

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Zeca Camargo e os sabores e sensações da Índia

O jornalista Zeca Camargo contou sua experiência na Índia em mesa realizada no Salão Bridge do Clube do Comércio neste domingo, dia 18 de novembro. A ocasião era o lançamento do livro Índia – Sabores e Sensações, que ele escreveu em parceria com Varunesh Tuli, natural da Índia e que mora entre o Brasil e aquele País  há vinte e cinco anos. O livro é um lançamento da Companhia de Mesa, um selo da editora Companhia de Letras. A mediação foi do jornalista Vitor Diel.

O livro resulta da vontade de Zeca de compartilhar sua paixão pela Índia — os sabores e aromas que se confundem com as lembranças de suas visitas. Reunindo mais de 30 receitas vegetarianas tradicionais e relatos de viagens. “Fiz oito viagens à Índia, a primeira vez não foi das melhores impressões, Nova Dheli era o caos, mas a comida e a dança já me impressionou”, diz. Tuli é casado com uma grande amiga de Camargo e foi assim que eles se conheceram. “Você não sai igual ao que você entrou na Índia, tem gente que não quer voltar nunca mais, tem gente igual a eu que quer voltar sempre”, acredita.

Ele conta que toda a reportagem que fazia na época do Fantástico, se tivesse uma oportunidade iria para a Índia.“Eu tava lá, queria que olhassem para a índia não como um lugar exótico, aliás, detesto essa palavra exótica, parece que é algo que você não quer chegar perto, distante. É para estimular a chegar, viajar de braços abertos, experimentar essa cultura”, acredita.

As receitas são da memória e da família de Varunesh Tuli, e Zeca também ajudou a selecionar e escrever os relatos de viagens que perpassam todo o livro. “São receitas do dia a dia da Índia  e a minha contribuição são as crônicas…Os textos são todos sobre sabores, gostos, experiências e paladares. Eu não sou vegetariano e a gente não queria passar a ideia de que a índia fosse toda vegetariana, então,consome-se carne sim, mas não a de vaca”, relata.

Para ele, cozinha é um ponto de encontro maravilhoso. “A cozinha é um evento, uma desculpa para as pessoas se juntar. Essa é a primeira coisa que eu conto no livro: um episódio em que a mãe do Tuli me vê trabalhando na madrugada, estava hospedado na casa deles na Índia, e quase me obriga a comer, ela faz uma refeição para mim, mas o que ela queria mesmo era conversar”, diz.  

Texto – Rafael Gloria

Fotos – Diego Lopes

 

Atena Beauvoir: “As pessoas trans são as pessoas mais livres que essa sociedade conhece”

Crédito: Bere Fischer


Conforme a mitologia grega, Atena é filha de Métis, deusa da prudência, com Zeus, o pai dos deuses. Avisado por Gaia, a terra, e Urano, o céu, de que o filho que haveria de nascer de Métis seria mais poderoso que o pai, Zeus corria o risco de ser destronado, assim como ele destronara seu próprio pai Cronos. Zeus desafiou Métis a se tornar uma gota d’água e a engoliu, devido ao receio. Entretanto, Métis gerou Atena no ventre do deus, e a filha veio à luz pela cabeça do pai completamente adulta e armada.

Na tarde deste domingo (18) aconteceu a palestra “O existencialismo francês na literatura de autoria trans brasileira”, com Atena Beauvoir e Phelipe Caetano, na Biblioteca do Clube do Comércio. A filósofa, escritora e educadora – que ressaltou a importância de pessoas trans no evento –  contou a história da Grécia Antiga para explicar a escolha de seu nome. “Atena já nasceu adulta e armada. É a única deusa grega que tem uma finalização diplomática para com as guerras, a única deusa que trabalha com assuntos de política”, disse.

Segundo a filósofa, um assunto que pode parecer simples, como um nome, tem uma profundidade se analisarmos bem o seu significado. Existe uma questão de identidade, uma ideia sobre si. “Qual é o seu nome social? Você escolheu ele ou lhe foi dado? Ele é a sua identidade, você já está vinculado a seu nome social. O seu nome já é uma história que você vai carregar”, questionou.

Em seus estudos, Atena notou a necessidade de retirar o colonialismo na formação da palavra transexualidade. No século XIX, o termo derivou do que era conhecido como homossexualidade, na definição, seria uma atração afetiva-sexual de uma ser por outro de mesmo sexo. “Trans vem do latim: ‘O que está do outro lado’. Assim, cria-se um parâmetro de lado certo e de lado errado. Logo temos um senso comum sobre as pessoas trans, o colonialismo existencial exclui esse ‘outro’”, afirma.

Crédito: Diego Lopes

Transantropologia é o termo que a autora utiliza a fim de defender uma epistemologia, uma produção intelectual de pessoas trans sobre si. Assim, a relação com pensamentos existencialistas de Simone de Beauvoir (1908-1986) e de Jean-Paul Sartre (1905-1980) surgiram ao notar pontos de intersecção com a experiência de uma pessoa trans.

“Sartre e Simone de Beauvoir são os maiores existencialistas da Europa. Em ‘Segundo sexo’, Simone de Beauvoir disse que a experiência do ‘eu’ mulher sempre foi dito por homens. Falei aqui sobre o que é ser trans, estar do outro lado. Enquanto o ‘cis’ está do lado ‘certo’, onde seu corpo e sua ideia sobre si estão confortáveis. Para Sartre, não há modelo humano em que uma pessoa possa estar acima da liberdade. Liberdade é o instrumento que o ser humano menos sabe usar. Em ‘O Ser e o nada”, ele vai discutir a dificuldade do ser humano em ter essa liberdade e gostar de ser limitado, além de reclamar dessa limitação”, relacionou Atena.

Em 2019, a filósofa fará quatro anos de sua transição de gênero. Interagindo com o público, e retomando o debate sobre a vida de uma pessoa trans, ela perguntou: “Quem aqui tem uma tese para defender o seu ser? Quem aqui deu seu próprio nome? Quem aqui escolheu seu corpo? Nomes são histórias materializadas na escrita. A pessoa trans quer tirar esse nome, essa história, essa experiência de existir que é sofrida. A pessoa trans é uma pessoa que não está ajustada a cultura que é imposta nela. Muitos usam a expressão ‘ausente no meu corpo’”, contou.

Porém, mesmo sendo indivíduos expulsos de suas famílias ou com morte social, Atena Beauvoir fez uma colocação sobre uma escolha de recomeçar a vida. “As pessoas trans são as pessoas mais livres que essa sociedade conhece. Elas mudam a latitude e a longitude delas. São 35 anos de pessoas trans produzindo um conhecimento sobre si, mais de 50 títulos. Isso é ter noção de liberdade. As pessoas trans produzem sua própria existência. Você é o que você está construindo de você mesmo” pontuou.

Texto – Airan Albino
Fotos – Diego Lopes e Bere Fischer

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Ensinamentos do Zen Budismo em nova edição

Foi com uma meditação de  cinco minutos que teve início a mesa de lançamento do livro “O Ensinamento Zen de Bodidarma”, na tarde de domingo (18) no Salão de Bridge do Clube do Comércio. Esta edição tem tradução de José Fonseca, discípulo de Monja Coen, e foi publicada pela editora Bodigaya.

Principal responsável pelo Zen Budismo, Bodidarma deixou seus ensinamentos preservados em xilogravuras, provavelmente por volta dos anos 500. Ele foi o 28º ancestral de Zen  na Índia e o 1º na China, já que fez uma viagem de 5 anos entre os dois países. O Budismo já existia no país chinês, mas Bodidarma levou para lá o foco na mente. “Quem vê sua natureza é um buda. Se você não vê sua própria natureza, invocar budas, recitar sutras, fazer oferendas e manter preceitos não tem valor nenhum”, diz um dos ensinamentos.

Texto: Thaís Seganfredo
Foto: Diego Lopes

Concerto Zaffari traz programa diversificado para apresentação na Feira do Livro

Neste último dia de Feira do Livro, 18 de novembro, aconteceu o já tradicional Concerto Zaffari no Teatro Carlos Urbim com Orquestra Unisinos Anchieta, conduzida pelo regente Evandro Matté. A apresentação contou com o patrono da Feira do Livro de Porto de Alegre no ano de 2012 e a jornalista Tânia Carvalho, longa parceira do evento. “Todas as artes se integram pois nascem de uma necessidade humana de atingir a beleza”, resumiu Tânia. Coronel celebrou a poesia do momento e ao concerto Zaffari. O concerto ainda contou com o solista Renato Oliveira na segunda música, o “Concertino p/ Trompete”, de Handel.

Confira o programa:

Concerto em Sol Maior – Vivaldi/ Presto/ Adagio/ Allegro

Concertino p/ Trompete – Handel

A Lenda do Caboclo – Villa-Lobos

Intermezzo – Ópera Cavalleria Rusticana/ Pietro Mascagni

The Gabriel’s Oboé – Ennio Morricone

Cinema Paradiso – Enio Morricone/ Arranjo: Alexandre Ostrovski Jr.

Fuga y Misterio – Astor Piazzolla

Mourão – Guerra-peixe

Escorregando – Ernesto Nazareth/ Arranjo: Arthur Barbosa

 

Confira mais fotos no álbum –> https://www.flickr.com/photos/feiradolivropoa/albums/72157703746697175

Texto – Rafael Gloria

Fotos – Diego Lopes

Kizomba, festa de mágica e poesia das raças

Crédito: Pedro Heinrich

Na tarde deste sábado (17), o Teatro Carlos Urbim recebeu o “Kizomba de Sopapinho com o Sopapo Poético”, uma parceria entre a Aliança Francesa, a Câmara Rio-Grandense do Livro (CRL), o Instituto Estadual do Livro e a Paróquia Nossa Senhora de Pompeia.

O evento começou com a apresentação do Magicontador francês, Eric Chartiot. Chartiot  foi diretor da Aliança Francesa de Porto Alegre, de 1997 a 2002, ano em que passou a ser mágico e contador de histórias. O número fez parte do Projeto Imersão Cultural, do IEL, que procura ensinar o português e aproximar imigrantes de países negros da cultura local. O mágico chamou a atenção de todos presentes no Teatro, relacionando seus truques à importância de ler. Transformando guardanapos em flores, serrotes em violinos, cordas em capítulos de um livro, Eric conseguiu encantar o público.

A professora e contadora de histórias Carmen Lima (participante da Feira no QG dos Pitocos) subiu ao palco para anunciar os jovens poetas que iriam se apresentar. Mas antes, mostrou o seu talento ao contar uma das histórias do livro “Lendas da África Moderna”, de Heloisa Pires Lima e Rosa Maria Tavares Andrade. A história de um sapo e de uma mosca falou sobre não fazer com outros o que não gostamos que façam com a gente. Na sequência, Carmen brincou com a plateia num jogo de música e memória sobre o tema.

Em seguida, foi a vez do Sopapinho, projeto voltado a crianças negras dentro do Sopapo Poétivo, um sarau de poesia negra que aconteceu há seis anos. De março a novembro, a comunidade negra da Capital se reúne na última terça-feira do mês para compartilhar textos de autoria negra, sendo esse o único critério. As crianças simularam a dinâmica do tradicional encontro, entre músicas que convidam os poetas a declamarem, elas expuseram textos de escritores gaúchos e, também, próprios.

A fusão de todas as atrações se deu na vez do Sopapinho. As crianças estavam cantando e declamando junto de Carmen, tiveram toda a atenção e o carinho dos imigrantes do Imersão Cultural, parecia que elas estavam fazendo um truque de mágica, durante a sua apresentação viraram as Magicontadoras.

 

Texto – Airan Albino
Fotos – Pedro Heinrich

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Katia Suman revela os diários secretos da Ipanema para uma multidão no Teatro Carlos Urbim

Em uma das mesas mais lotadas da 64ª Feira do Livro de Porto Alegre, Katia Suman recebeu os antigos colegas de Rádio Ipanema para reviver um pouco aquela época e também falar um pouco sobre o livro “Katia Suman e os diários secretos da Ipanema Fm”, que aborda os bastidores da rádio provinda dos anos 80 e 90. Na ocasião, estavam presentes o jornalista Mauro Borba, o músico Jimi Joe, o comunicador Cláudio Cunha, com mediação do escritor e patrono da feira de 2013, Luís Augusto Fischer.

O livro traz histórias a partir de um caderno que a jornalista usava quando trabalhava na rádio Ipanema FM. Na época, sem e-mail, redes socias, Whatsapp ou qualquer outra forma instantânea de conversas, ela instituiu um livreto que ficava na mesa do estúdio, e servia como veículo de comunicação interna. Como trabalhava no período da noite, às vezes ficava sem ter como se comunicar com os outros colegas. “Quando eu chegava às sete da noite era a Voz do Brasil, não encontrava quase ninguém. A maioria das coisas aconteciam no horário comercial, entrevistas contato com os caras das gravadoras, artistas e tal. “quando eu chegava eu não sabia o q acontecia exatamente, então comprei um caderno e deixei no estúdio e sugeri que todo mundo anotasse ali o que tinha rolado durante o dia, e os cadernos passaram a ser o nosso grupo de whats. O próprio telefone fixo era um artigo de luxo na época”, esclarece . Foram 23 livros  guardados com relatos dos problemas, necessidades, ideias e brigas, entre 1985 a 1997.

Mauro Borba comenta que rolava umas brigas pesadas no caderno. “Eu li o livro praticamente sem parar. É curioso ler isso e ver como eu era imaturo, como eu era rebelde”, diz. Jimi Joe conta uma história que envolve os Replicantes e que aparece nos cadernos. Ele viu um dos integrantes xingar alguns dos comunicadores da Ipanema em um show e compartilhou com os colegas no caderno. Houve reação de Mauro Borba, que sugeriu que cortassem eles da grade da programação – sendo que era só a Ipanema que tocava a banda. Em tom de brincadeira, ele pede desculpas aos Replicantes pelo que escreveu.

A mesa foi toda contemplada por histórias e rememorações do tempo da Rádio Ipanema, importante também no sentido de redemocratização em um período recém saído de uma ditadura civil-militar no Brasil. “A rádio virava palanque com muita facilidade, todos crescemos na ditadura, era nossa primeira eleição então é claro que nós  fazíamos a cobertura da primeira eleição. Entrevistamos políticos, fazíamos boletins de acampamentos dos sem terra, era uma rádio viva”, explica Katia.

Cláudio Cunha afirma que trabalhou por dezoito anos na rádio e sempre como rádio autoral. “Era uma relação com a música que só a Ipanema proporcionava, nós éramos nossos programadores, não éramos obrigados a tocar a música que o cara da gravadora nos mandava. Jimi Joe lembra que ainda há muito material na rede bandeirantes que diz respeito a Ipanema. “Estão lá, perdidos. A história oral é uma coisa legal de contar de pai pra filho, mas tu ter isso no papel é outra coisa”, afirma.

Texto – Rafael Gloria

Fotos – Diego Lopes

Cristina Serra e a tragédia anunciada de Mariana

“É um desastre que ainda não acabou”. É assim que a jornalista Cristina Serra resumiu a tragédia cujo relato ela compartilha em um livro-reportagem lançado na 64ª Feira do Livro de Porto Alegre no início da noite de sábado. “Tragédia em Mariana: a história do maior desastre ambiental do Brasil” (Record, 2018) aprofunda a investigação iniciada pela repórter em novembro de 2015, quando ocorreu o colapso da barragem administrada pela empresa Samarco e que despejou lama tóxica sobre a cidade de Mariana, interior de Minas Gerais. Carregada de rejeitos da indústria de mineração, a enxurrada atingiu 38 municípios – 35 em Minas Gerais e três no Espírito Santo, até chegar ao oceano, com prejuízos ambientais ainda desconhecidos.

Na mesa, mediada pelo jornalista Marco Estivalet, a autora revelou que a dimensão humana da tragédia, e a extensão da investigação, foi o que a envolveu e a estimulou a abandonar o emprego como repórter da TV Globo e dedicar-se exclusivamente à produção da obra. A pesquisa a levou a fatos novos sobre o ocorrido e que hoje são ignorados pela mídia: o vício da imprensa brasileira pelos temas mais imediatos é apontado pela autora como a causa para o desaparecimento da tragédia do noticiário.

O relato de Cristina é carregado de emoção e compromisso jornalístico. Mesmo desconhecendo os termos técnicos da engenharia, a escritora mergulhou no assunto e chegou a desdobramentos que seguem inconclusos. “A reação da empresa após a tragédia foi péssima”, conta, descrevendo a dificuldade em quebrar as barreiras burocráticas das corporações envolvidas na negligência, Samarco, Vale e BHP, e revelando a profundidade da tragédia psíquica que assolou as comunidades afetadas pela lama da barragem de Fundão. “Ainda hoje há casos de depressão na população de Mariana”, diz, explicando que o desastre foi causado por uma cadeia de eventos como um processo de licenciamento ambiental recheado de falhas e suspeitas de corrupção ainda não esclarecidas.

Às 19h30min, Cristina autografou na Praça de Autógrafos.

Texto: Vitor Diel
Fotos: Bere Fischer e Pedro Heinrich
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Joanna, Carol, Marta e as alternativas para sair da bolha

Crédito: Diego Lopes

O movimento feminista voltou ao centro dos debates nos últimos anos, entretanto não é a maioria da população que “fala” feminismo. Como é possível levar esse pensamento para fora de uma bolha? No início da noite deste sábado (17) aconteceu a mesa “Feminismo, quadrinhos e representatividade – experiências com artivismo no Brasil e na Noruega”, participaram a jornalista norueguesa Marta Breen e a designer Carol Rossetti, sob mediação da escritora Joanna Burigo.

A última atividade realizada no Auditório Barbosa, do Centro Cultural CEEE Erico Verissimo, pela 64ª Feira do Livro de Porto Alegre, iniciou com o comentário da mediadora sobre a importância de diferentes discursos de mulheres a respeito do tema. “Eu que estudo e trabalho com isso, fico feliz em ver diferentes formas de expressão sobre o feminismo. As tuas ilustrações, Carol, eu conheci por causa da viralização do projeto”, disse Joanna.

O Projeto Mulheres começou em 2014, quando a ilustradora quis transformar a dor de amigas em manifesto. “Eu quis contar histórias reais de mulheres fictícias, porque tinha dificuldade de falar sobre feminismo com pessoas de fora do movimento. Os diálogos eram legais com colegas, mas não com a minha família – principalmente, mulheres. Eu quis confrontar a bolha do ativismo”, explicou.

Crédito: Diego Lopes

A ideia era falar do tema que todas as mulheres sofrem, porém sutilmente. “Eu queria expressar as ideias que eu tinha de feminismo, e percebi que histórias tocam as pessoas. Então fiz de maneira não agressiva, eram histórias curtas sem jargões feministas, para não afastar ninguém”, falou Carol.

“Eu não esperava que isso se tornaria um projeto. Eu fiz um desenho sobre a personagem Marina, que sofreu por ser gorda. Uma amiga minha teve um caso de gordofobia e fiz essa ilustração para falar com ela. As primeiras histórias eram de pessoas que eu conhecia. Depois, mulheres do mundo inteiro me mandaram coisas, foi fantástico sair e ouvir coisas de fora da minha bolha. Lugares de dentro do Brasil, inclusive. Uma arte é a chamada para discussão. Em abril de 2014 o projeto começou, em dezembro foi a primeira vez que usei a palavra ‘feminismo’. Naquele momento, teve gente se perguntando: ‘Isso é ser feminista? Que legal, tô entendendo agora’. Eu fiquei muito feliz com aquilo”, relembrou a ilustradora.

Com influência do movimento de libertação das mulheres na Noruega, por parte de sua mãe, Marta viu igualdade nas histórias que escutou. “Eu era jornalista em um dos principais veículos de Oslo, lá me defrontei com algumas situações. No meu primeiro livro ‘Mulheres, Vinho e Canções’ entrevistei mulheres da música que me contaram histórias muito parecidas sobre se sentirem reduzidas, diminuídas por homens. A indústria fonográfica é dominada por homens, mas vi que isso acontece em todos lugares: política, esporte, etc. Basta ser mulher. Esse momento de clarividência me fez escrever onze livros depois”, contou.

Crédito: Diego Lopes

Marta sempre teve o desejo de fazer quadrinhos para falar sobre o feminismo, mas a falta de aptidão para desenhar lhe fez procurar alternativas. “Nunca desisti do sonho de fazer quadrinho e graphic novels. Em 2015, eu estava fazendo um guia para meninas e fiz um concurso para jovens ilustradoras. Assim conheci a Jenny Jordahl, nós já fizemos cinco livros, como o ‘60 mulheres que você deveria ter conhecido’, sobre mulheres norueguesas, virou um grande sucesso no país”, comentou.

Para o público internacional, a dupla nórdica escreveu e ilustrou o livro “A palavra F. 155 razões para ser feminista”, sobre o movimento de libertação das mulheres. “20 países já traduziram nosso livro. Nós temos ondas de discussões sobre feminismo, acredito que hoje estamos no meio de uma. Nós temos que lutar por tudo, nada nos foi dado. A luta não terminou, porque isso pode ser tirado nós. Semana passada, 10 mil mulheres lutaram na Noruega para manter a lei do aborto”, contextualizou Marta.

Texto – Airan Albino
Fotos – Diego Lopes

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Paula Anacaona, a francesa que encontrou-se com Dandara

Texto: Thaís Seganfredo
Fotos: Pedro Heinrich
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Paula Anacaona encontrou seu lugar nesse mundo. Ou melhor, seus lugares, porque são muitos: São Paulo, Rio de Janeiro, todos os estados do nordeste e – por que não? – Porto Alegre. Escritora e tradutora, ela fundou a Anacaona, editora parisiense especializada em literatura brasileira. “Eu tenho esse sotaque francês que tento apagar”, brincou Paula, fluente em português (que aprendeu sozinha), na sua fala na 64ª Feira do Livro de Porto Alegre. A conversa, mediada por Fernanda Bastos, da editora Figuras de Linguagem, foi nesse sábado (17), em parceria com a Aliança Francesa de Porto Alegre. Na ocasião, ela também lançou seu livro “Tatou”.

Foi aos 24 anos que ela veio para cá conhecer o Brasil. Desde lá, já pegou o avião mais de 20 vezes para essas terras. “Ao lado da minha paixão pelo país, tem a minha paixão pela literatura”, conta. Sua editora, na qual traduz títulos brasileiros para o francês, tem uma atenção especial para a literatura de autoria negra e a literatura marginal. “Eu li Ferréz um dia e me apaixonei, porque apesar de não ter sido criada na periferia, a literatura marginal tem uma revolta que me chamou a atenção”, diz. Filha de uma mãe francesa branca e de um pai negro ausente que veio da Venezuela, ela não se sentia completamente pertencente ao país francês.

Além dos regionalistas como José Lins do Rego, Paula publica muitos autores contemporâneos. Um dos nomes mais recentes é Jarid Arraes, autora de “As lendas de Dandara”.  “Apesar de Dandara não ser uma história francesa, a resistência dela no quilombo foi universal, então os franceses se interessaram bastante”, relata a autora que também conta como os franceses têm uma visão exótica acerca das favelas brasileiras, que Paula tenta, “em um trabalho de formiguinha”, desconstruir. (Na conversa que tivemos no dia anterior à sua fala e que está publicada abaixo, Paula detalhou esse aspecto do mercado).

Recentemente, ela lançou seu primeiro romance, “Tatou”, também publicado no Brasil, que fala sobre “uma mulher negra na França que tem dificuldades em encontrar sua negritude”.  A identidade é um tema que lhe é caro, na medida em que, pelo fato de ser negra, era obrigada a ouvir seguidamente os europeus lhe perguntarem de onde ela vinha. “Essa é uma maneira de dizer ‘eu sou daqui e você é do além’”, conta a escritora, que não entendia a pergunta, porque, afinal, ela era francesa. Era, pois agora já é muito mais brasileira. Aqui, encontrou-se com Dandara, com Maria Firmina dos Reis. Aqui, fez as pazes com o pertencimento.

Sua vivência enquanto mulher negra está na sua obra e em todo o seu trabalho, mas, como fez questão de frisar, essa é uma escolha sua. Como destacou durante a conferência, quando um escritor negro escreve, sempre há a pressão para que ele escreva sobre assuntos negros, sempre há uma caixinha para escanteá-lo. “Temos que prestar atenção para não ficarmos nesse cantinho que os editores e a grande mídia nos dá, senão vamos ficar presos”, defendeu.

***

A escritora conversou com a gente rapidamente na sexta-feira, enquanto passeava pela Feira do Livro. Na entrevista, falamos sobre a inexistência da literatura periférica na França, a visão dos leitores franceses sobre o Brasil e ainda sobre arte engajada. Confira na íntegra:

Aqui no Brasil temos a literatura marginal, que é um dos teus temas de interesse. Mas e na França, existe uma literatura periférica? E se existe, ela é valorizada?
Não, na verdade não tem muita literatura marginal na França. Eu acho que começou um pouco a literatura marginal no final dos anos 1990, mais ou menos ao mesmo tempo em que no Brasil. Mas, depois, eles recusaram esse rótulo de escritores marginais, não quiseram se identificar assim, então o movimento não continuou. Esses escritores continuaram escrevendo, mas cada um em uma editora diferente e sobretudo recusando esse rótulo do marginal. O que eu gosto na literatura do Brasil é esse orgulho pela periferia, que na França não existe muito. Acho também que a população que mora nas periferias da França foi mais para o lado do hip-hop. Tem alguns artistas que escrevem muito bem, são poetas, mas eles fazem hip-hop e não literatura.

O que te levou a descobrir  o Brasil?
Na verdade foi um pouco por acaso. Às vezes, as pessoas dizem que tinha que acontecer e outras pessoas dizem que eu fui brasileira em uma vida passada. Eu acho que eu estava procurando o meu lugar, que na França eu não achava. Viajei de mochilão para a América do Sul toda e eu gostei muito do México, fui para a Venezuela, mas não me identifiquei. Quando eu cheguei ao Brasil, eu me senti em casa. Então eu acredito que fui brasileira em uma vida passada.

Que autores tu destacaria na tua editora e o que está buscando publicar em um futuro próximo?
Eu gostei muito, durante um período, dos escritores regionalistas. Porque apesar de ser uma realidade muito diferente da minha – eu moro em Paris, nunca fui morar no campo –  se tinha uma poesia nos campos de cana-de-açúcar. Publiquei alguns desses autores, como Rachel de Queiroz e José Lins do Rego, mas hoje em dia me interesso mais pela literatura contemporânea, acho muito interessantes os escritores afrobrasileiros. Publiquei a Conceição Evaristo, que pessoal e profissionalmente foi um encontro muito bom, eu aprendi muito com ela e eu acho que sua obra tem um lado poético muito forte e também um engajamento político. Quando um livro pode combinar engajamento político e qualidade literária, é um livro perfeito. Eu publiquei três livros dela e estou à espera do próximo romance. Provavelmente vou lançar uma coleção de ensaios e provavelmente também vou publicar a Djamila Ribeiro. Ela tem um posicionamento, um ativismo que eu acho interessante, sobretudo nessa perspectiva de cada um se conhecer mais.

Estamos vivendo um momento de valorização da autoria negra brasileira, mas com a ressalva de que é preciso dar continuidade, para que não seja passageiro. Como tu avalia esta questão?

Espero que não seja só uma moda. Por exemplo, quando você vê a literatura marginal na França, foi um pouco uma moda, mas no Brasil não, estão escrevendo há 15 anos e acho que não vão parar. Então espero que, para a literatura afrobrasileira, vai ser igual. Aqui também há a “sorte” entre aspas de ser uma maioridade, os negros são 50% da população, sendo que na França, os negros são mais ou menos uns 10% da população, então é claramente uma minoridade. Mas eu acho, hoje em dia, que a geração Y não aguenta mais ficar sem ser ouvida, então tenho certeza que o movimento não vai parar, apesar do Bolsonaro falar que não acredita em minoria. Vamos ver o que vai dar, mas tenho muita fé nesses movimentos.

No teu romance, “Tatou”, tu coloca tua vivência enquanto mulher negra. Tu acredita que todo artista deve ser político?
Acredito que sim. Acho que talvez seja uma questão de gosto, mas eu estava com a Conceição Evaristo na França, a gente fazia uma turnê e foram dez dias muito intensos. Quando a gente foi voltar para Paris, tínhamos quatro horas de trem, e eu fui ler um livro sem o tema da escravidão, da desigualdade. Fui até a estação e comprei o livro da Elena Ferrante, que fez um sucesso extraordinário, eu quis ler o que escreveu uma mulher que vendeu dois milhões de livros. Li e achei sem nenhum interesse. Bem escrito, a história de duas meninas, tudo bem, mas achei que, por exemplo, a autora poderia ter falado do papel da mulher na Itália dos anos 1950, ela não fala.

Acho que “Tatou”, na verdade, fala de uma mulher negra na França, mas com toda a dificuldade que ela tem, sobretudo, de achar a sua negritude. É um livro sobre o caminho até a negritude. Porque essa mulher é miscigenada e criada por uma mãe branca, então a negritude não veio pela família, pelo carinho do pai, foi mais pelo olhar do outro. O outro sempre colocava ela no papel de mulher negra e ela, criada por uma mãe branca, não entendia muito bem o que era isso. Então, no começo do livro, ela tem muita raiva justamente e vai ser seu caminho pessoal e ela vai achar o caminho da negritude indo para o Brasil e descobrindo o movimento do sarau. Tem muita coisa de mim dentro dele, no sentido de que eu também descobri o movimento do sarau, que me comoveu muito. Mas é ficção total, a mulher é riquíssima e eu não sou rica.

Como o mercado editorial vê os autores brasileiros e como os franceses estão recebendo esses autores?
O problema é essa política de exportação que o Brasil fez nos últimos 40 anos, o mito do paraíso racial, da democracia racial, um povo cordial e festivo. O Jorge Amado, que é um escritor que eu gosto, muito fez muito mal para a literatura brasileira. Como ele é quase um dos únicos clássicos que os franceses conhecem,, eles pensam que a literatura brasileira é desse tipo. Então muitas vezes, antes das férias do verão, as pessoas vêm me procurar na feira e elas me pedem um livro para ler na praia. Ou estamos em pleno inverno e elas pedem “me dá um pouco de sol”. Então ainda tem essa impressão da literatura brasileira, que ela vai ser calorosa, exótica, vai ser uma leitura fácil. Se o escritor fosse super intelectual e  falasse de uma família de São Paulo, não é a imagem que o francês tem do Brasil.

Realmente, eu tenho que batalhar muito contra essas imagens, contra esses estereótipos. Os livros que eu vendo muito são os livros sobre favela, porque eu sei, de um ponto-de-vista comercial, que o título é bom, que o francês gosta da favela… assim meio exótico. Eu espero atrair ele com esse título mas eu acredito que, depois, o que tem dentro vai desfazer um pouco esse preconceito e ele vai ter mais a imagem da favela e menos a imagem da Globo. O meu trabalho realmente é um pouco pisar em ovos, no sentido de que os franceses têm uma expectativa, e eu não posso decepcionar. A ideia é equilibrar essa expectativa com uma ética profissional, que é mostrar o Brasil como eu conheço e como eu amo.  

 

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