Jô Bilac: “Eu reflito sobre as coisas que nos aproximam”

Crédito: Diego Lopes


Dentro da programação da 64ª Feira do Livro de Porto Alegre acontece o Seminário de Dramaturgia, que teve início nesta quinta-feira (15) e vai até domingo, dia 18 de novembro. Na tarde de hoje, o dramaturgo carioca Jô Bilac conversou com o público da Sala de Música do Multipalco do Theatro São Pedro sobre suas obras “Conselho de Classe” e “Insetos”.

Mesmo com pouco mais de 30 anos, Bilac é um dos nomes sólidos do teatro no Brasil. Aos 20 anos já tinha menções honrosas em suas criações. Atualmente, seus textos são referência na dramaturgia brasileira. Junto de Carolina Pismel, Júlia Marini, Paulo Verlings e Vinicius Arneiro fundou a Companhia Teatro Independente, responsáveis por peças premiadas como “CACHORRO!”, “REBÚ” e “CUCARACHA”.

“Acredito que as nossas fronteiras estão bem claras, o que nos separa já está bem claro. Então, eu reflito sobre as coisas que nos aproximam. Penso no atrito entre o indivíduo e coletivo. Todos nós envelhecemos, sentimos dor, fome. Essas expressões biológicas permitem que nos conectemos. Dessa angústia, dessa transcendência, a dramaturgia surge como forma de elaboração, de tribo, de existência”, explicou o carioca.

Segundo o dramaturgo, escrever para teatro é diferente do que escrever um romance, por isso ele mergulhou na metodologia das pessoas que fazem parte do meio. “A melhor maneira de eu entender a dramaturgia era me aproximando dos atores, ver como eles decoravam o texto, como criavam os personagens. Assim eu pude compreender e desenvolver essa escrita. A plenitude do texto de teatro, assim como de um roteiro de cinema ou de TV se dá quando ele vai para o público. Não é a obra em si, como um romance”, disse.

Crédito: Diego Lopes


Um exemplo dessa imersão está em “Conselho de Classe”, uma parceria realizada com a Cia dos Atores. No ano de 2013, o Bilac fez parte de grupos que ajudaram os estudantes na ocupação das escolas. “Assim como no movimento das passeatas. os alunos começaram a ocupar as escolas pela falta de estrutura e verba para as instituições e para quem trabalhava lá”, comentou.

A atriz Valquíria Cardoso e o ator Alex Limberger fizeram leituras de passagens da obra. “Escrevi ‘Conselho de Classe’ no meio do processo, para refletir a realidade da escola pública e do ensino como uma identidade cultural que se arrasta”, desabafou. O texto virou peça e circulou pelo país. Na fala, Jô Bilac revelou ter escrito uma série inspirada no livro, que vai ao ar em 2019.

Texto – Airan Albino
Fotos – Diego Lopes

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Os Senhores do Tempo não escutam direito

A sala O Retrato no Centro Cultural CEEE Erico Verissimo  recebeu nesta quinta-feira, 15 de novembro, o escritor e psiquiatra português Joaquim Manuel Pinto Serra, que nos altos dos seus oitenta anos atravessou o oceano Atlântico para chegar à Feira do Livro de Porto Alegre e proferir uma palestra intitulada A Arte do Envelhecimento, uma contribuição do escritor para a desmistificação da ideia de envelhecimento.

A audiência foi chegando aos poucos, composta por uma grande maioria de senhoras e senhores que se aglutinaram nas cadeiras de plástico brancas improvisadas. Um pouco depois das 16h, quando foi marcada o início da fala na Feira, o português se levantou e finalmente começou a discorrer sobre envelhecer, sobre como a sociedade vê os mais velhos.  “Envelhecer não é uma doença. Também ganhamos alguma coisa com o envelhecimento e tento trazer isso nas minhas obras”, diz. Tudo em um sotaque calejado português e em um tom baixo.

Falou, falou, mas um murmurinho começou a se voltar por parte da plateia. O problema se tornara evidente: não estavam conseguindo escutar direito.

Alguns reagiram com reclamações breves, outros inclinavam o corpo um pouco para frente a fim de tentar escutar tais palavras. “Estava dizendo que é diferente falar de envelhecimento de dentro para fora, uma coisa é um idoso falando sobre o envelhecer, suas experiências são valiosas”, disse em um momento.

Quando um senhor na plateia vestindo uma roupa azul e um chapéu  irrompeu a tentativa de silêncio para pedir que se era possível que viesse mais à frente, e que falasse mais alto, que não estavam conseguindo escutar direito. Ele se aproximou das cadeiras, e disse: “É culpa do tempo, né?”. E todo mundo riu. E ele se aproximou, e começou uma espécie de conversa mais próxima com alguns dos presentes que tentavam, se esforçavam para se entender. 

Sobre o autor

Motivado pelos estudos nos domínios da Gerontologia e da Gerontopsiquiatria, Joaquim Manuel leciona a disciplina “A Arte de Envelhecer” em várias Academias de Seniores, na cidade de Lisboa. Essas experiências sensibilizaram-no para escrever publicações dedicadas aos mais idosos e à sua difícil integração numa sociedade incomodada com as longevidades concedidas, nos tempos atuais, pela Ciência.

Texto – Rafael Gloria

Fotos – Pedro Heinrich

 

Os 20 projetos destaques do 6ª Prêmio RBS de Educação

Crédito: Pedro Heinrich


Na tarde desta quinta-feira (15), aconteceu o encerramento do 6º Prêmio RBS de Educação, no Auditório Barbosa Lessa do Centro Cultural CEEE Erico Verissimo. Após o anúncio dos projetos vencedores, ocorrida na noite anterior, hoje foi realizada uma conferência no formato TED (apresentações de 18 minutos, no máximo).

Intitulado de “Quem ensina a entender as palavras ensina a entender o mundo”, o encontro contou com os 20 projetos destaques do Prêmio. As escolas das redes pública (município e estado) e privada foram representadas pelos professores responsáveis de cada iniciativa.

Veja como foi a ordem de apresentação do TED:

Ensino Infantil e Fundamental 1
Escola de Educação Infantil São Judas Tadeu – Porto Alegre, professora Fernanda Assis. Projeto: Árvores da minha escola
EMEI Bem Me Quer – São Leopoldo, professora Lubna Lemes. Projeto: Vamos Viajar?
EMEI Pingo de Gente- Garibaldi, professora Luciane da Silva Pinto. Projeto: Bonecas Abayomis
Escola de Ensino Fundamental Mosaico – Porto Alegre, professora Patrícia Nystrom. Projeto: Fundamental é mesmo o amor!

Ensino Fundamental 1 e 2
Colégio Marista Pio XII – Novo Hamburgo, professora Ana Mattes. Projeto: Literatura, novelas e tecnologia
Colégio Marista Pio XII – Novo Hamburgo, professora Giséli Buerger. Projeto: Curto-circuito Literário
Colégio Marista Pio XII – Novo Hamburgo, professora Caroline Soares. Projeto: O museu na sala de aula
EMEF Martha Wartenberg – Novo Hamburgo, professor Luiz Lamb. Projeto: Lugar de mulher é…
Escola de Ensino Fundamental Nossa Senhora – Porto Alegre, professora Silvana Corrêa. Projeto: Voluntários da Literatura

Ensino Fundamental 2
EMEF José Mariano Beck – Porto Alegre, professora Luciana Soares. Projeto: Livros nas mãos
Escola Santa Mônica – Pelotas, professora Fabiola Godoy. Projeto: No Universo da Sabedoria
Colégio Marista de Santa Maria – Santa Maria, professora Maria Mendonça. Projeto: Leitores e Escritores
EEEF Centenário – Ijuí, professora Danieli Biolchi. Projeto: Literatura de Cordel e a Segunda Guerra Mundial
AVAEC Unidades Educacionais – Veranópolis, professora Maura Pandolfo. Projeto: Bem-vindo ao Mundo do Pequeno Príncipe

Ensino Fundamental 2 e Médio
Escola Municipal de Ensino Médio Alfredo Aveline – Bento Gonçalves, professora Eliana Passarin. Projeto: Vozes que encantam e empoderam
Colégio Estadual Dr. Liberato Salzano Vieira da Cunha – Liberato Salzano, professora Belamar Anziliero. Projeto: Romeu e Julieta dos pampas
Escola Sesi Ensino Médio Eraldo Giacobbe – Pelotas, professor Ricardo dos Santos. Projeto: Julgamento da Leitura
EEEB Prudente de Morais – Osório, professor Carlos Diego. Projeto: Álbum Literário
EMEF Presidente Vargas – Campo Bom, professora Ana Aline. Projeto Fake News x True News

Texto – Airan Albino
Fotos – Pedro Heinrich
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Práticas de mediação de leitura são compartilhadas em encontro

Eles são responsáveis pelo primeiro contato de muitas crianças com o universo infinito dos livros. Os mediadores de leitura atuam em escolas e bibliotecas criando pontes, formando leitores e contando histórias.

Pelo segundo ano consecutivo, a 64ª Feira do Livro de Porto Alegre sediou o Encontro de Práticas em Mediação de Leitura, na Livraria Paulinas, onde foram compartilhadas diversas iniciativas na área. O evento é uma realização do Núcleo de Mediadores de Leitura da Câmara Rio-Grandense do Livro (CRL) em conjunto com o Instituto Federal Sul Campus Camaquã.

Entre as experiências compartilhadas, houve o relato de uma contação de história por uma personagem drag queen, além de curtas-metragens produzidos em bibliotecas públicas. Para Ana Cecato, coordenadora do Núcleo na CRL, “a ideia é ampliar esse universo da mediação da leitura não só para o espaço escolar mas para outros, como as bibliotecas comunitárias, e para que esses mediadores possam estabelecer pontes entre esses projetos”. Sandra Salenave, também coordenadora do projeto e representante do Instituto Federal, conta que o encontro é importante para unir os envolvidos. “Muitas pessoas fazem ações sozinhas nas suas bibliotecas, nas suas comunidades. Aqui é o momento de troca, de aprendizagem”, disse.

A palavra poética e o poder da imaginação

Quem abriu o encontro foi a escritora paulistana Selma Maria. Imaginativa, ela propôs uma série de brincadeiras com o público, usando muita criatividade para mostrar que a palavra é um mundo de histórias possíveis. “Em casa de educador, militar não é substantivo, militar é verbo. A gente milita sobre a palavra, sobre a liberdade e sobre a poesia”, disse, saudando Paulo Freire.

Parafraseando o autor José Paulo Paes, a escritora afirmou que a palavra é o brinquedo do mediador, e que “quanto mais se usa esse brinquedo, mais novo ele fica”. Incentivando o lúdico e a interatividade na mediação de leitura, a autora defendeu ainda que a contação de história tem o dom de trazer sorrisos para que ouve. “As histórias estão aí, não precisamos de escritório para criá-las, achamos a palavra poética no milho do dia-a-dia”.

Texto: Thaís Seganfredo
Fotos: Bere Fischer

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Prêmio RBS anuncia os vencedores da 6ª edição

Crédito: Diego Lopes


Um projeto que analisa o fenômeno das fake news nas redes sociais e outro que estimula a leitura crítica de um clássico literário foram os grandes vencedores do 6º Prêmio RBS de Educação, anunciados na última quarta-feira (14), no Museu de Arte do Rio Grande do Sul (Margs), em Porto Alegre.

Os professores vencedores em cada categoria levaram o prêmio de R$ 5 mil cada. Também houve premiação para os demais projetos melhor colocados. No total, foram 10 finalistas de cada categoria. Nesta edição, 355 trabalhos inscritos de diferentes regiões do Estado foram avaliados por júri técnico e, em segunda etapa, receberam votação popular pela internet. Todos os finalistas e vencedores terão seus projetos divulgados nesta quinta-feira (15), a partir das 13h, no Centro Cultural Erico Verissimo, durante a 64ª Feira do Livro de Porto Alegre.

Realizado pelo Grupo RBS e pela Fundação Maurício Sirotsky Sobrinho, a iniciativa tem o apoio técnico do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec). A premiação tem como objetivo estimular práticas de mediação e incentivo à leitura em diferentes áreas do conhecimento, como literatura, matemática, artes e ciência. A Câmara Rio-Grandense do Livro (CRL) foi representada pelo presidente Isatir Bottin Filho.

Crédito: Diego Lopes


Confira quem foram os premiados:

Escola Pública
1º LUGAR – Ana Aline Gomes Schmitt | Fake News x True News: Qual o seu Lado na Internet?| Escola Municipal de Ensino Fundamental Presidente Vargas, em Campo Bom.

2º LUGAR – Carlos Diego Aliardi | Álbum Literário: a História em Fotos |Escola Estadual de Educação Básica Prudente de Morais, em Osório.

3º LUGAR – Eliana Passarin | Vozes que Encantam e Empoderam: Elza, Elis, Cecília. | Escola Municipal de Ensino Médio Alfredo Aveline, em Bento Gonçalves.

Escola Privada
1º LUGAR – Maura Coradin Pandolfo | Bem-vindo ao Mundo do Pequeno Príncipe | Avaec Unidades Educacionais, em Veranópolis.

2º LUGAR – Caroline Ferreira Soares| O Museu na Sala de Aula | Colégio Marista Pio XII, em Novo Hamburgo.

3º LUGAR – Fernanda Assis | Árvores da Minha Escola | Escola de Educação Infantil São Judas Tadeu, em Porto Alegre.

Homenagens
Menção Honrosa Raça: Franciele Vanzella da Silva | Empoderando Crianças Negras Através da Literatura | Escola Municipal de Ensino Fundamental Professora Nancy Ferreira Pansera, em Canoas.

Menção Honrosa Gênero: Luiz Fernando Lamb Balon | Lugar de Mulher é… |  Escola Municipal de Ensino Fundamental Martha Wartenberg, em Novo Hamburgo.

Menção Honrosa Cidadania: Caroline Ferreira Soares | O Museu na Sala de Aula | Colégio Marista Pio XII, em Novo Hamburgo.

Menção Honrosa Meio Ambiente: Fernanda Assis | Árvores da Minha Escola | Escola de Educação Infantil São Judas Tadeu, em Porto Alegre.

Menção Honrosa Inclusão: Luciana Ferreira Soares | Livros nas Mãos | Escola Municipal de Ensino Fundamental José Mariano Beck, em Porto Alegre.

Fonte:GaúchaZH
Fotos: Diego Lopes
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ESPM apresenta vídeo-case da 64ª Feira do Livro de Porto Alegre

Crédito: Reprodução


“Livro livre, um mundo na praça” é o slogan da 64ª Feira do Livro de Porto Alegre, que está propondo a retomada de espaços públicos. Conhecida por ressignificar a forma como a Praça da Alfândega é vista, a Feira deixa as pessoas que passam pelo local mais seguras.

No início da noite desta quarta-feira (14), aconteceu a apresentação do vídeo-case feito pela Escola Superior de Propaganda e Marketing de Porto Alegre (ESPM-Sul) para esta edição da Feira do Livro. “Produção audiovisual como metodologia ativa de ensino” foi o título da exibição acontecida no Espaço do Conhecimento Petrobras.

Crédito: Bere Fischer

O professor dos cursos de Design e Publicidade e coordenador do Centro de Imagem e Som da escola, Douglas Barra afirmou ter uma preocupação pedagógica com seus alunos ao planejar um projeto. “Tudo começou com uma conversa da parte de jornalismo com a Câmara Rio-Grandense do Livro (CRL) sobre o tema da 64ª Feira do Livro, a fim de estreitar relações entre as partes. Nós temos a CoDe (Comunicação e Design Jr), uma agência de publicidade da ESPM, que tem um núcleo de áudio e vídeo, onde fazemos produções sociais, culturais, comerciais” explicou o professor Barra.

As produções desenvolvidas pela CoDe geralmente trabalham com locação e atores. Entretanto, para a Feira do Livro, o coordenador sugeriu um projeto diferente, inclusive para que os estudantes envolvidos ampliassem seus portfólios. Os conceitos utilizados na criação se voltaram para o lúdico, o feito-à-mão, o poético, o artesanal, o orgânico.

O vídeo fala sobre uma árvore que floresce apenas uma vez por ano, e os moradores desta cidade usam seu calor humano para que a árvore resista ao frio. A colheita, a cidade são feitos papel, e todos ganham vida no período em que acontece a Feira do Livro. O case da ESPM está nas redes sociais da Feira, além da programação da TV aberta de Porto Alegre.

 

 

Confira a ficha técnica do Co.De da ESPM-Sul
Diretor de Cena: Hiroshi Kuamoto
Assistente de Direção: Isabel Fleck
Diretor de Fotografia e Operador de Câmera: Cássio Machado
Diretor de Arte: Patrique Bagatini
Assistente de Arte: Pablo Lauria
Assistente de Arte: Ellen Porto
Diretora de Produção: Giovanna Baccin
Assistente de Produção: Pyetra Salles
Gerente: Bruna Sartor
Roteirista: Sergio Barsotti
Making Of: Fernanda Fávero
Monitor RTVC: Arthur Alves
Monitor RTVC: Natasha Valenzuela
Locutor: Eduardo Pitta
Desenho de som: Cassiano Pradella
Montador e finalizador: Daniel Bergmann
Ilustradora: Laís Muniz
Ilustrador: Hiroshi Kuamoto
Assistente de Ilustração: Isabella Muller
Orientador: Douglas Barra

Texto – Airan Albino
Fotos – Bere Fischer
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Wagner Schwartz e o conto de uma cidade

Wagner Schwartz precisava se sentir menos estrangeiro no país que o destino escolheu para ele viver, a França. Coreógrafo e performer, naquela época, por volta de 2010, ele ainda não sabia que seria alvo da censura conservadora no Brasil, após fazer uma performance nu no Museu de Arte Moderna, em 2017.

“Mesmo após cinco anos, a língua estava lá fora, eu precisava de algo mais perto de mim, por isso esse livro é muito mais físico do que intelectual”, ele explicou ao público, no salão de Bridge do Clube do Comércio, na tarde dessa quarta-feira (14), em uma conversa em parceria com a Aliança Francesa.

O livro a que se refere é “Nunca Juntos Mas ao Mesmo Tempo”, que ele escreveu em duas línguas simultaneamente: o francês e o português – ou “brasileiro”, como lhe diziam os parisienses. E foi despretensiosamente, pela necessidade de se comunicar com a cidade, que ele começou a colocar sentidos no papel.

Como explicou à plateia, seu processo de criação literária tem muito em comum com o trabalho que realiza ao criar uma coreografia. “Há uma tensão física que envolve a escrita. Tanto a dança quanto a literatura envolvem uma única matéria, que é o corpo. E o que me interessa nesses trabalhos é como o corpo se apresenta”, relatou. “No movimento do corpo no ar e no movimento das mãos no papel, “a gente repete, dá pausa, tenta reinventar uma nova forma de dizer alguma coisa”.

Foram cinco anos de envolvimento físico e afetivo nessa busca pelo encontro, que acabou em uma intimidade, ainda que “intuitiva”, como explica Wagner, entre ele e o idioma.  “Foi graças a ela que eu entendi, a partir do meu movimento  interno, o que era a Paris que estava à minha frente. Aí eu fiz as pazes com a cidade”, disse.

Texto: Thaís Seganfredo
Foto: Bere Fischer

 

“Fim da Linha – O Crime do Bonde” é o novo livro de Rafael Guimaraens

 

Rafael Guimaraens, autor de livros como Tragédia da Rua da Praia e 20 Relatos Insólitos de Porto Alegre, apresentou nesta quarta-feira, 14 de novembro, o seu mais novo romance intitulado Fim de Linha – O Crime do Bonde, e que também segue o signo dos trabalhos anteriores – essa espécie de romance histórico, reconstituindo a trajetória de personagens reais envolvidos, misturando ficção e realidade. Todos livros da editora Libretos, da qual Rafael também é um dos fundadores.

Antes de entrar propriamente na obra, Guimaraens fez uma breve introdução sobre a função de escrever e, particularmente, sobre o que o motiva a continuar escrevendo. O autor se sente na obrigação de retribuir ao leitor generoso que escolhe o livro dele dentro os milhares que estão disponíveis na Feira do Livro. “Tento recompensar escolhendo boas histórias e tentar contá-las da melhor forma possível”, diz. Ele ainda revela que escreve, porque gosta de escrever e que tem essa vontade de querer interferir na sociedade e de querer valer os pontos de vista, e desse modo contribuindo para humanizar as pessoas a fim de que as relações se deem no campo da tolerância.

A história traça um enredo que começa ao fim de uma manhã ensolarada no centro de Porto Alegre, em que uma impressionante engrenagem de coincidências une os destinos de três personagens. Guiados pela compulsão e aprisionados em um teatro de olhares e despistes, assédios e esquivas, ciúme e cobiça, encaminham-se para um trágico acerto de contas no fim da linha do bonde circular. Antes do desfecho inapelável e seus danos colaterais, o leitor é convidado a percorrer a jornada dos personagens até ali, através de episódios ambientados nos bastidores políticos da República Velha, na vida boêmia e cultural do Rio de Janeiro no início do século 20, na belle époque porto-alegrense e nas rudes disputas do interior gaúcho, nos quais uma tênue fronteira separa a degeneração e a dignidade.

Guimaraens conta que a história parte de um crime passional, mas segue a linha do que costuma fazer nos seus livros. “A preocupação é a mesma: não se trata apenas do fato em si, mas da história daquele período”, explica. E depois aborda o conceito da microhistória, que é o que tem realizado em seus livros, mas de uma forma natural, pois não conhecia essa ideia antes. “É pegar um determinado episódio de um determinado tempo e lugar e colocar uma lupa em cima desse episódio e que permita ambientar todo aquele tempo, as consequências da sociedade e assim retratar de maneira fiel os hábitos e valores da época”, afirma. Tudo isso demanda muita pesquisa também. “Eu pesquiso muito quem são aquelas pessoas, e a partir daí eu me proponho a contar a história e às vezes eu me sinto autorizado a contar a história de acordo com o que eu senti dela; mas não manipular a história, a gente não pode cair na tentação do maniqueísmo. Todo mundo tem algo de bom ou de mau”, revela. O livro também revela o machismo estrutura da época principalmente com o que acontece com a protagonista. 

Nascido em Porto Alegre, em maio de 1956, Carlos Rafael Guimaraens Filho atuou como repórter, editor e secretário de redação da Cooperativa dos Jornalistas da Capital (Coojornal). Foi editor de Política do Diário do Sul, do grupo Gazeta Mercantil e é autor de 15 livros. Dentre eles estão ‘Pôrto Alegre agôsto 61’, ‘Tragédia da Rua da Praia’, ‘Teatro de Arena – palco de resistência’, ‘A Enchente de 41’, ‘Unidos pela liberdade! ‘, ‘A dama da lagoa’, ‘O sargento, o marechal e o faquir’ e ’20 relatos insólitos de Porto Alegre’.

Texto – Rafael Gloria

Fotos – Bere Fischer

A renovação do processo criativo de Manuel Filho

Crédito: Bere Fischer


O processo criativo de um escritor(a) varia de acordo com seu método, mas quando essa metodologia se renova? O escritor, cantor e compositor Manuel Filho acredita que se você quer escrever algo diferente, não adianta ter sempre o mesmo processo. O artista paulista conversou com alunos das séries finais do Ensino Fundamental sobre esse tema na tarde desta quarta-feira (14), no Auditório do Memorial do Rio Grande do Sul.

Atualmente, Manuel está escrevendo um livro de forma inovadora, dentro da sua vivência: utilizando uma máquina de escrever. Em parceria com a escritora Penélope Martins, os dois estão trocando capítulos da obra por cartas, usando carimbos, etc. “Essa foi uma alternativa de sair do mundo do computador, da solidão que ele proporciona para trabalhar o processo criativo”, reafirmou o autor.

Crédito: Bere Fischer

Segundo uma das professoras presentes, os alunos trabalharam em sala de aula com o livro “Frankenstein e outros mortos-vivos”, que reúne contos de Manuel, Ivan Jaf, Rosana Rios e Shirley Souza. Explicando como criou sua história, o palestrante disse: “Quando tinha 16 anos, eu tinha uma ideia de escrever um livro sobre um homem que foi enforcado, mas não morreu. Depois de muitos anos, aquela ideia não me pareceu tão boa como antes, e, em vez de livro, ela virou um conto. Gosto de citar um dos livros de Marina Colasanti que disse que se esquecermos todas as histórias, não nos restará nada. Nós somos as histórias que conhecemos”.

Manuel foi questionado sobre suas referências, o escritor comentou ser fã de Francisco Marins (1922-2016) e de Lygia Bojunga, além de ler clássicos como “As Aventuras de Tintim”, “Alice no País das Maravilhas”, “ A Revolução dos Bichos” e “O Rei Lear”. Também, filmes como “Luzes da Cidade”, “A Volta dos Mortos-Vivos” e a série/quadrinhos “The Walking Dead”.

Para o autor, suas ideias não tem um caminho ou final certo, elas viram contos ou livros ou música conforme sua imaginação. “Maria Mudança” é um dos exemplos, começou a partir de um sonho. “Eu escrevi um livro por causa desse nome: Maria Mudança. Ele não saía da minha cabeça. E, no final, eu entendi que estava em processo de mudança”, relembrou.

Depois de sua palestra, Manuel Filho participou de uma sessão de autógrafos, na Praça da Alfândega, de seu mais recente livro: “MMMMM” (Mônica e o Menino Maluquinho na Montanha Mágica”, que foi ilustrado por Ziraldo e Maurício de Sousa. Trata-se do primeiro livro que uniu as turmas da Mônica e do Menino Maluquinho.

Crédito: Diego Lopes

Texto – Airan Albino
Fotos – Bere Fischer e Diego Lopes

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O Centauro e a pena: O intelectual Barbosa Lessa em discussão

A mesa sobre o escritor Barbosa Lessa aconteceu no Salão de Bridge, do Clube do Comércio, nesta quarta-feira, 14 de novembro, e reuniu o patrono da Feira do Livro de 2013, Luís Augusto Fischer e o autor do livro “O Centauro e a pena: Barbosa Lessa e a invenção das tradições gaúchas”, do doutor em História Jocelito Zall, oriundo de sua dissertação de mestrado defendida no departamento de História Social, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

O livro é um passeio pelas circunstâncias que mediaram a criação do movimento tradicionalista, por Barbosa Lessa e Paixão Cortes, em pleno cenário urbano dos anos 1950. Para os acadêmicos de História e afins, é uma aula de escrita meticulosa no manejo das fontes e das teorias sobre biografismo e representação, que permitem enxergar a complexidade da construção de um movimento cultural e de uma figura intelectual como Barbosa Lessa.


Fischer inicia a mesa comentando sobre o livro de Jocelito, caracterizando-o como um trabalho científico rigoroso, mas com uma grande fluência no texto e na leitura, passando por campos da história, sociologia da cultura e estudos literários. “Barbosa Lessa tem uma trajetória impressionante, um dos nomes importantes do movimento tradicionalista, compositor do Negrinho do Pastoreio, o primeiro intelectual que o tradicionalismo gaúcho conheceu”, diz. Jocelito diz que não procurou dar um olhar de denúncia, nem de elogio. “Tentei olhar o objeto com distanciamento, um olhar científico, com a objetividade possível que é dada pela metodologia, pelo conceito utilizado,” explica.

Texto – Rafael Gloria

Fotos – Bere Fischer

Damián Tabarovsky: “Sempre há uma dimensão conservadora na literatura”

Entrevista: Rafael Gloria e Thaís Seganfredo
Foto: Diego Lopes

Momentos de ruptura são naturais na história da arte. Para o escritor argentino Damián Tabarovsky, no entanto, a literatura precisa sair da inércia que marca sua estética. O autor, que está em Porto Alegre divulgando seu livro “Literatura de Esquerda”, acredita que os escritores, mesmo os de ideias progressistas,  são muitas vezes conservadores na linguagem. Damián participa da 64ª Feira do Livro de Porto Alegre nesta quinta-feira (15), no Auditório Barbosa Lessa no CCCEV, às 18h. No mesmo dia, ele autografa a obra às 19h30min, na Praça dos Autógrafos.

Nesta entrevista, conversamos sobre vanguarda, inclusão das mulheres no mercado literário e ainda sobre o termo “literatura periférica”.

Como você avalia a questão da inovação da linguagem na literatura em relação às outras artes?
A literatura sempre teve um problema em relação às outras artes, no sentido que seus tempos são mais lentos. Por exemplo, em relação à vanguarda, um momento chave, que é a década de 1920, 1930, houve romances, como [os do autor James] Joyce… mas não tanto como no cinema e nas artes plásticas. Sempre há, na literatura, uma dimensão conservadora, incluindo esses autores que são vanguardistas, autores que, como eu, tentam defender a ideia da renovação e questionar certas sintaxes hegemônicas. Mas outras artes tiveram, entre o século XX e o século XXI, um nível de experimentação em relação ao qual a literatura ficou um pouco atrás.

Uma maior representatividade, com a entrada de mais mulheres, de mais negros e indígenas no mercado poderia acarretar em uma subversão na qualidade literária das obras?
Eu sou editor, além de escritor, dirijo uma editora na Argentina que se chama Mardulce, uma pequena editora independente, mas muito prestigiosa, onde uma parte muito importante das escritoras mulheres argentinas publicam. No Brasil, vocês conhecem a Selva Almada, que publicou pela Cosac Naify, é uma autora de Mardulce. Para uma editora contemporânea como a Mardulce, é quase natural publicar tantas mulheres quanto homens. Acho extraordinário essa tendência de as mulheres ocuparem cada vez mais espaço não apenas na literatura, mas no geral. Eu tenho uma filha de 15 anos, muito feminista, obviamente, e eu aprendo com ela

Você lançou o seu livro em 2004, e o momento político era outro. Agora, há uma onda de conservadorismo e neoliberalismo.  Como isso se refletiu no cenário literário?
Na Argentina, o livro gerou muita polêmica e muita discussão. Agora, depois de 15 anos, eu acabei de publicar outro livro, que é como a continuação, “Fantasma de la Vanguardia”, que também está gerando muita polêmica. Naquele momento, a Argentina vinha da grande crise de 2001, que foi o pior momento, tivemos cinco presidentes em uma semana. Depois tivemos o Kirchnerismo e, agora, um governo de direita neoliberal. É certo que o contexto político mudou, mas o mercado editorial não mudou tanto. Então esse livro, na minha opinião, continua sendo bastante atual, refletindo sobre a dimensão conservadora de certos escritores progressistas.

Você acompanha o cenário literário do Brasil? Que escritores e escritoras citaria?
Quando saiu o livro aqui ano passado, o jornal O Estado de São Paulo fez uma enquete sobre qual seria a literatura de esquerda no Brasil. Surgiram opiniões muito interessantes, como a de Joca Reiners Terron, muito bem pensada, dizendo que a literatura de esquerda implica numa tensão entre centro e periferia, que no Brasil só existe a de periferia. Mas acho que aqui os os problemas também aparecem, aqui também existe a figura do escritor de mercado, conservador, mas com ideias políticas progressistas.

Apesar disso, a gente tem, aqui no Brasil, a literatura marginal e periférica, que vem cada vez mais ganhando força. Existe isso na Argentina?
Sim, mas não sei se diria que periférico é marginal. Periférico é Kafka, um escritor tcheco, de língua alemã, que escreve na margem, na lateral, mas não é marginal, é descentralizado. Isso me interessa muito na literatura. Borges dizia que esse é o lugar da Irlanda em relação à Inglaterra.  A Argentina tem um idioma falado por centenas milhões de pessoas, que é o espanhol e onde há um poder, que é a Espanha, a Argentina sendo o último país ao sul, o mais longínquo. Então ela é periférica em relação à Espanha. Esse lugar ocupou Borges na construção da sua obra, eu acho extraordinário.

Aqui no Brasil, esse termo é usado também para se referir à literatura produzida nas favelas…
Na Argentina não há isso. Mas, há dois anos, São Paulo foi a cidade convidada na Feira livre de São Paulo. E todos que foram não eram escritores consagrados, eram das favelas. Achei muito interessante, porque aí se articula a política cultural com a social, a cultura como forma de integração social nas favelas. Acho um projeto muito interessante, que espero que com o novo presidente não se perca.

A força jovem da ESPM na cobertura do evento

Pelo segundo ano consecutivo, estudantes de Jornalismo da ESPM estão participando da cobertura oficial das atividades da 64ª Feira do Livro de Porto Alegre. A equipe de dez estudantes, formada quase exclusivamente por mulheres, atua produzindo conteúdo para as redes sociais da feira, atualizando o Facebook, Twitter e Instagram. O projeto é executado pela HUB, agência experimental da faculdade. Todo o conteúdo está sendo produzido de forma acessível a pessoas com deficiência, já que a equipe recebeu uma capacitação realizada pela empresa Desenvolver Inclusão e Diversidade Consultoria.

Para a professora Marcela Donini, coordenadora da HUB, “além do ganho evidente de eles terem na prática uma cobertura em tempo real, há o ganho na formação como cidadãos, de acompanharem diariamente um evento democrático e aberto”. Julia Berrutti participa pela primeira vez da cobertura de um grande evento. A estudante conta que sempre teve uma relação afetiva com a feira. “Está sendo uma experiência fantástica, estou aprendendo bastante e ao mesmo tempo conhecendo a Feira em toda a sua dimensão”, diz. As estudantes Ana Carolina Camejo, Alice Germansen, Fabiana Marsiglia, Giovanna Sommariva, Júlia Berrutti Antunes, Júlia Barros e Silva, Júlia Guarienti, Marcella Cunha, Márcia Bernandes Fernandes e Rafaela Knevitz Missel, além de João Pedro Argemi, integram a equipe.

Neste ano, a parceria com a ESPM se consolida também com a Co.De – Comunicação e Design Jr., empresa júnior de publicidade e design da instituição, que produziu o vídeo institucional oficial da feira para a televisão e o spot para rádio. Estudantes de design editorial também integram a parceria, produzindo cartazes temáticos sobre a feira.

Texto: Thaís Seganfredo
Foto: Diego Lopes

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